segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Versinho em bloco

Eu escrevi sem poder rimar
que tudo que é bagunçado
é por tua causa, menina.
Quando me pego sem poder dormir,
quando me enxergo sem me colorir,
ou te vejo na bolha de sabão.

Eu escrevi sem poder rimar
que enquanto houver um sinal de ti
ou um barquinho longe no horizonte
com o teu lenço ali dependurado,
com um versinho de amor bem guardado,
eu vou estar acenando do cais.

Eu escrevi sem poder rimar
que enquanto houver o teu carinho leve
e a minha ousada marca de fraqueza,
há de haver bobagem na minha goela
e há de haver sereno em você, magrela,
já que a fraqueza de mim é você.

Eu escrevi sem poder rimar
que eu não desisto da dor de doar,
ou do doce som que tua voz ecoa.
Nem desisto da insônia mirabolante,
pois, se nem troco açúcar por adoçante
como desistir de você assim?

Eu escrevi sem poder rimar
que tua ausência amarga demais.
Vê se me liga pra dizer 'boa noite'
ou me explicar tua frase de efeito
pois não consigo nem pensar direito
com teu poder de me desvencilhar.

Eu escrevi sem poder rimar
que minha sombra te sobrará
num dia triste de segunda-feira.
E se perguntarem se eu sonho, de repente
ou se por ela tenho amor
eu respondo: desmedidamente.
Eita, parece que rimou!

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Confessé

Eu odeio quando você não percebe que é pra você que escrevo, que é sobre você que escrevo e que é por você que me apaixono um tantinho mais a cada dia.
Odeio quando você sorri escondido enquanto eu sorrio escondido e a gente nada de se juntar.
Odeio quando você sabe que me ama e descansa no medo de nos enfrentar.
Odeio quando falamos de outros amores e, em seguida, saímos a roubar flores no ensaio de nos entregar.
Odeio quando roubamos flores e deixamos todas murcharem na vergonha de nos desvendar.
Odeio que você sabe e sabe tanto quanto eu
que o meu amor te cabe e que o teu amor é meu.
Odeio que a gente se pinte de amigo e brinque que vai casar;
Odeio que nos pertence, por agora, se esconder
Quando tudo que a gente quer é ficar junto e olhar o mar;
Quando tudo que a gente quer é se viver e se amarrar e a gente nada de confessar .


-Ana Larousse

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Apego ao que tenho

Eu tenho a certeza de algo agradável
e tenho apego às coisas que tenho.

Eu tenho uma lembrança guardada
de você acostumada com café logo pela manhã.

Eu tenho um disco antigo que ainda ouço
de uma banda que ninguém ouviu falar.

Eu tenho uma gravata que você me deu
pra pelo menos uma vez eu ser elegante.

Eu tenho um segredo que você contou
quando eu nem sonhava com você.

Eu tenho uma lista de livros perdida
em algum lugar da minha gaveta.

Tenho um ódio fincado no peito
de alguém que nem sequer conheci.

Eu tenho um violão que me acompanha
quando há ausência de companhia.

Tenho um filme pra ver no domingo
quando a preguiça resolver mandar.

Tenho um álbum de fotografias
de quando eu nem era eu.

Tenho ali também uma foto tua
que eu miro vez ou outra, ou vez e sempre.

Tenho guardado uns trocados pra quando a gente precisar
Que talvez nem dê pra muito mais que um jantar.

Eu tenho poemas que leio
quando algo me contagia.

Eu tenho aqui uma alegria
de quando te ouvi cantar.

Tenho um rastro de ousadia
que já me atirou no chão.

Eu tenho duas tulipas rosa
que você ainda receberá.

Tenho feridas abertas e feias
deixadas por uns poucos.

Tenho a leveza de contar
com outros poucos e loucos.

Eu tenho um caderno velho
cheio de rabiscos tortos.

E tenho até um vício antigo
de me admirar com a lua.

Mas de tudo que eu tenho
Nada é tão bonito
quanto a saudade tua.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Erotografomania

Quando eu saio assim na chuva pra caminhar, até tento te sentir nos pingos que escorrem do meu rosto. Mas parece meio inútil toda essa caminhada e pensamento que quase nunca leva a nada, exceto à uma tristeza mórbida, porém não letal. Eu volto pra casa e fico vendo da janela o céu desabar e derreter em águas que fugirão pra algum lugar. E eu lembro da chuva que a gente nunca tomou junto. Lembro da briga que a gente nunca resolveu, do disco que a gente nunca ouviu e das ruas por onde nunca caminhamos. O vento, suficiente apenas para balançar o cabelo, é demasiado pouco pra quebrar a janela e me fazer fechar os olhos. Porque se eu fecho os olhos por conta própria, meu mundo vai direto pro teu e nem sequer pensa em voltar. Na realidade, eu só queria uma notícia tua, um sinal de vida, um aval de que o tempo ainda não me apagou aí de dentro. E eu também podia confessar um milhão de coisas nessas minhas cartas. Eu podia te mostrar em desenhos e gráficos a constância do teu nome em cada pedaço do meu âmago; eu podia explicar a relação entre os meus olhos e os teus, provando por A+B que nada me é tão elétrico quanto os sons da tua voz. Eu podia confessar que te ter ao telefone é como ver o tempo parar e que, na hora de dizer adeus, o choque da realidade seguinte é doloroso. Meu dedo e o botão de desligar se repelem como se tivessem pólos iguais, mas é tudo vontade do eterno, de continuar te ouvindo. A gente tem essa mania de eterno, de querer que tudo dure mais tempo do que na realidade é pra durar. Eu...
              Eu só queria saber se teu olhar ainda se fixa no céu, se tua lembrança de mim ainda mexe em alguns nervos. Na verdade, confessar é se expor ao extremo. Sabe aquela ave que constrói um ninho enorme na árvore de galhos secos e tronco longo? Confessar é aquele ninho com os ovos expostos lá em cima aos gaviões. Mas confesso que muitas confissões são apropriadas, embora eu quase nunca saiba discernir quais são. As cartas são só confissões e minhas confissões são mais baratas que batata no camelô de centro baiano. Confesso, no entanto, que de todas as cartas que já escrevi, ainda tenho uns quatro dicionários pra te contar.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Esquecimento

Dizem que com o passar do tempo feridas são saradas e dores curadas. Mas em mim ela está fazendo aflorar a maior das dores: o esquecimento. Estou esquecendo como era te abraçar e sentir o calor do teu corpo a me aquecer. Estou esquecendo como era te tocar e sentir tua pele macia. Estou esquecendo como era te ter bem perto e sentir o perfume que teus cabelos exalavam. Estou esquecendo como era te beijar; o prazer que os teus doces lábios me davam. O gosto que fazia meu corpo pedir por mais. Aos poucos estou te perdendo. Contudo, volto a dizer. Dizem que com o passar do tempo dores são curadas. Seria possível ele "curar" a minha?
(Livio Augusto)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Lugarzinho meu

Há um lugar aqui que inspira a reverência do teu nome e, apesar de você não o conhecer, é quase como te olhar e ver teus traços nas sombras refletidas no chão. Parece que a vida já não se contenta em tudo que me lembra você e ainda me mostra esse espaço de concreto e madeira como se fosse indicado pra conter um pouco a minha saudade.
É uma pracinha pequena num lugar isolado da cidade com seus cinco ou seis bancos, mas com um em especial virado pra onde nasce a lua. Um pedacinho de chão meio triangular com umas poucas árvores altas, um gramado bem descuidado e inúmeras folhas secas peregrinando na calçada. Falando assim pode não parecer, mas é lindo. Talvez não pra maioria das pessoas, talvez não comparado aos oásis da Líbia, porém, lindo, da sua maneira. E sua beleza é mais realçada ainda nas manhãs de domingo e principalmente ao anoitecer. Fica lá com os galhos secos pintando um cenário indescritível, tendo como cúmplice um avião passando ao longe e a lua parcialmente coberta por uma ou duas nuvens. Claro, tinha que envolver a lua. É ainda ligeiramente iluminada por duas luzinhas incandescentes e ostenta em uma das pontas uma placa de sinalização escrita ‘pare’. Um lugarzinho com aquele gosto de poesia que você sempre deixou.
De início eu nem entendia o porquê daquilo tudo me lembrar justo você. O porquê de coisas tão obsoletas vagarem no meu inconsciente e trazerem à tona a tua companhia. Mas aos poucos a razão foi clareando lucidamente e eu ainda caminho por lá quase que diariamente lembrando cada detalhe teu que faz falta. Bom, pelo menos eu sinto que cumpro um pouco com minha cota diária de você. E, até hoje é o que me deixa mais próximo de sentir o vento como um beijo teu.
Eu percebi que aquelas poucas árvores altas numa pracinha tão miúda me lembram você porque, apesar de ser tão pequena a ponto de caber nos meus braços, tuas virtudes ultrapassam a avenida e, ainda que você não se veja tão inestimável como eu vejo, você é maior do que o que eu sinto e ainda maior do que o recinto mais recôndito e exacerbado do planeta. Também percebi que aquelas folhas secas e amarelas voando pra todo lado, ainda algumas estáticas e ainda outras livres como balão me lembram a tua inconstância que eu sempre gostei. Me lembram o teu jeito às vezes imprevisível, às vezes quase certo e sem dúvida nenhuma a tua vontade de voar livre de toda a letargia do mundo.  Percebi que aquele gramado descuidado remetia a você pela tua necessidade de ser cuidada, de ter um carinho aconchegante pra se sentir protegida, de ter um ouvido companheiro pra se sentir aliviada e de ter alguém disposto que possa te servir como segurança nos momentos mais aflitivos e que, mesmo que talvez nem tivesse essa necessidade, eu quero tanto ser esse alguém pra te cuidar que lembro de você como sendo o meu vaso que é tão valioso, mas também frágil.  Percebi que aquele banco solitário virado pro nordeste me lembra você porque quando eu me sento nele nas noites de frio ouvindo o silêncio e olhando pro firmamento, não há nada que eu queira mais do que tua companhia segurando minha mão, sentada ali do meu lado e falando bobagens pra gente rir o tempo todo como antigamente, antes dessa distância maldita. E nesse lugar eu te sinto tão mais perto como um velejador que sente a brisa do mar sem poder mergulhar até as profundezas. Percebi, por fim, que até aquela placa escrita ‘pare’ me lembra você. Me lembra quando eu cheguei batendo na porta da tua vida e você até hesitou em abrir, mas eu pulei a janela e você nem percebeu. E de tão amoroso que é teu coração, nem se incomodou de me ter lá dentro e de invadir a tua casa e de invadir o teu espaço.

E eu só espero te ter em breve sem toda essa agonia de circunstâncias indevidas que me pungem afiadamente. Espero como transeunte que não vê a hora de chegar em casa em meio à tempestade e encontrar o seu porto seguro. Porque mais importante que estar em casa é se sentir em casa. E quanto àquele pedaço meu que eu deixei por aí, só cuida bem dele e, por favor, não devolve. Até hoje ninguém mostrou tanto zelo como o teu. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Cicatriz

Minha tristeza é muito cega
pra se libertar assim.
É difusa em garrafas cheias.
E mais ainda o estrago
que eu fiz derramando lágrimas
dos teus doces olhos acesos.
E me dói ter errado assim
contra teu seio prestativo.
Mas tanto lamentei ter destoado
e tanto que te vejo paciente
que mais ainda move meus pés.
Os pés que te seguem e que
às vezes, ainda desviam da reta.
Há, no entanto, também certezas na vida
que movem moinhos dentro da cabeça.
As certezas que me trazem os afetos
e que tranquilizam meus nervos.
A certeza de que aí dentro cicatriza
e até desaparece a mágoa que eu deixei.
Certeza da tua mão segurando a minha
em cada instante maldito e taciturno
que eu ainda estiver saindo da estrada.
De como me faz querer ser melhor
até nas noites mais sombrias
dessa cidade desordeira.
A certeza da paz que tive
vendo tua afabilidade
nos instantes, nas estantes
e até estandartes deviam ostentar
tanto que tu é e sabe ser.
E de tanto que aprendi,
vi que teu peito é como asa de borboleta.
Às vezes, a gente machuca sem querer.