segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Vida em 6 passos
Primeiro passo: Tempo é asteroide apressado.
É água de rio em correnteza.
Aquele plástico velho que foi pra o lixo
e nunca mais voltou.
Não subestime o tempo.
Primeiro passo: Não conclua que eu te amo
por que eu te fiz tirar a roupa
e sussurrei balela no pé do ouvido.
Palavras são abismos sórdidos
de incertezas e variedades.
Não subestime as palavras.
Primeiro passo: Gente é puro recalque.
Humano é louco por natureza.
São freiras loucas, comerciantes loucos,
soldados loucos e juram sanidades uns aos outros.
Não subestime as pessoas.
Primeiro passo: Tem arte que embeleza o inferno.
Tem som que dá beijo na alma e morde a filosofia
numa amálgama de prazer em demasia.
Ela faz o que ninguém consegue.
Não subestime a música.
Primeiro passo: A fermata é um paradoxo.
Uma quietude perfeita de se ouvir.
Respeite também por que falar nem sempre
é a salvação do anjo aterrador.
Não subestime o silêncio.
Primeiro passo: Você estranha a ausência
da sequência dos passos. Por que a vida
não dá passos a ninguém. É só consequência.
É a ideia trivial do delinquente juvenil.
Mas respeite também a vida
e respeite todos os passos.
Por que passo a passo
a gente perde a melhor parte.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Ana
Ana gostava de preto.
Com um lenço enxugava o pranto.
Já pronta pra o prato quente
Disse pra o meu primeiro espanto:
"A praia promete vida.
Vida paira em qualquer canto."
"Pronto", disse eu, "pensativa
em pormenores pra não dizer, portanto,
que o prazer em prosear
parecia nela um tanto
quanto prático que prezar
pela espera de algum manto."
Ana parava pra pedir
proteção num velho abrigo.
Prolongava a própria arte
pra não parecer castigo,
provando em paráfrases provisórias
pensamentos privativos.
Me disse Ana pressentindo
polegadas de perigo:
"O pensamento periódico
por hora é meu melhor amigo.
Portanto, prove a primavera
prover a paz de Deus comigo."
Parei pra falar: "Ana,
Deus não priva teu problema.
Pare a poesia pra pegar
pesado e se livrar do dilema.
Pense positivo e pule.
Passe por cima do teorema.
Pois pra prever a perversidade,
é preciso parecer paciente, morena."
Ana disse: "Pra mim não dá. Prefiro perecer
nas palavras precoces do meu lema."
Um dia por parques petrificados, Ana,
penetrante, padeceu da ponte e só deixou um poema.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Léxico homicida
Jurou amor eterno
e prometeu lavar a louça.
Disse ainda que melhoraria na escola.
Aliás, não disse! Dessa vez foi uma promessa.
Já acostumada com o descaso das palavras,
vive a prometer e jurar.
Para o diabo com tanta alusão à verdade.
Por acaso são palavras só conjuntos
de letras sem sentido?
Maldito seja quem inventou
essa coisa de jurar e prometer.
Que agora não me basta unicamente
emitir o necessário de sons
prenunciando minhas atitudes.
Além disso eu preciso prometer.
Agora tudo que eu falo é balela
se não vier vinculado a um
"Ahhh eu juro sim".
Se bem que nossa geração já se acostumou
a ver a banalização das coisas
subitamente por meio de outras.
E é isso que tem acontecido
desde o princípio.
O léxico assassinou a "palavra"
com juras e promessas.
Mas palavras vão além.
Já são espíritos mortos que saem
de onde passaram tanto tempo, que morreram.
E à medida que se pensa, a ideia percorre
um caminho tão longo que ela morre.
Simplesmente assim. E depois de morta
precisa sair pela laringe
e a boca diz:"Aqui jaz um pensamento".
Não juro amor eterno
Nem prometo lavar a louça.
Pois, há quem fala sem pensar
e há quem diga o que não quer.
Mas se eu expeli algumas sílabas,
gemidos e segredos, é assim que é.
Sinto muito, meu bem,
mas não peça promessas.
Aqui há muito pouca sanidade
pra basear verdades ou mentiras
em conceitos místicos e culturais
sem sentido. Agora faça-me o favor:
Ouça aquela música e saia de si
por que há muito o que pensar.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Gente nossa
O suor aqui sempre valeu ouro como em toda terra de trabalhador. É o sangue frio dos poros vivos de gente mestiça. Gente que fez da terra lar e do amarelo, chão. Aqui o único verde é o do juazeiro e o sol arde em brasa na pele avermelhada. Aqui o açude enterra os seus mortos mas não mata a sede de ninguém. Aqui Cristo também tem braços abertos e vê cada periferia. Mas é só. Aqui ainda há os que ostentam o crucifixo como troféu aceso de perseverança. O mesmo povo que faz história e cultura. Por que cidade não é feita de Pe. Rolim nem papa, presidente, prefeito ou diabo a quatro. É o povo que faz história, que faz terra. Aqui, que tem oiticicas mais velhas que eu e ainda imita o Rio num pôr do sol formoso. Aqui tem gente de garra que se acumula e se empurra pra todo lado pra poder caber. Personagens carregados de histórias e esbanjam sorrisos sinceros no rosto. É pedaço de chão simples de ver, simples de falar, cheio de suas façanhas e agente de sabedoria. Mas quem conhece mesmo a terrinha é quem bate perna. É quem troca passos com a solidão nas ruas do centro. Quem conhece os moradores de rua até por nome. É gente que inspira gente e fica contente com a Carrazêra nossa de todo dia.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Medo
(De minha amiga Ana Lísia)
Quando menos espera-se
Vejo-me em um verdadeiro desatino
Em que não se pode mais saber o que pensar.
Mediante a uma espécie de loucura
Proponho-me a refletir.
Estas advindas das minhas dúvidas
Faz-me enxergar bem de perto o medo
Este, por sua vez, inescrupuloso
Joga-me a verdade sem piedade alguma.
E espero que assim o faça.
Ao mesmo tempo que procuro ignorá-lo
Prefiro... Já que não se restam alternativas
Escondendo os anseios
Fingindo, fugindo do que atormenta.
Ainda quero que sejam diferenças.
Mas ele me mostra as divergências
Imponho segredo
Que guardo dentro de mim
Escondidos em gestos, olhares e toques.
E ainda tão contidos
Deixo-os florescer
Mesmo pela incerteza do eterno
E ainda da verdade inescrupulosa
Momentaneamente loucura. Mas prefiro...
domingo, 13 de janeiro de 2013
Noites de sexta
Estavam ali jogados no chão os papéis amassados
cheios de rabiscos asquerosos e tediosos.
Por que na semana inteira é essa a cena.
O tédio com sons em disparate
e palavras jogadas no remorso do silêncio.
Mas era o dia da liberdade psicológica.
É como eu chamo esse calor momentâneo
que ferve as tripas e quer correr
de súbito sem uma gota de paciência
pra o cenário de um poema de Bukowski.
E essa liberdade me permite a franqueza
de dar gargalhadas falando mal do ordinários.
Dois seres dando gargalhadas dos ordinários.
Mais uma sexta-feira de verbos sorrateiros
que jorravam da garganta no ápice das ideias
de uma moça simples e ponderada.
Mais uma noite quente na mesa de plástico
com a cerveja derramada em cima
e um gole na boca a cada 30 segundos.
Eu com minha cadeira na sombra de cajá
Ouvia as teorias e opiniões desde
a pressão arterial até o humor
politicamente incorreto.
As teorias são poderosas.
Toda teoria é poderosa.
Vai depender de quem as conduz
e com que argumentos as faz correr.
São às vezes palavras fugazes vinculadas
às banalidades e bobagens no papel.
É como escrever poemas ouvindo Belchior.
Como sentar na pedra e deduzir quem a colocou lá.
É como perturbar a própria mente em noites assim quentes
ou mesmo noites frias de leves pancadas no rosto.
Mas esse sertão raramente me permite o frio.
É sempre o calor de brasa sem sono ou brisa.
Sempre sentado num canto escuro de parede
pensando em versos de boteco.
Mas é fascinante formular teorias.
Veja aquele cão! Quantas histórias
ele contaria se pudesse falar?
Veja o firmamento! Te parece belo
ou só rotineiro como o café?
Você pularia do quarto andar
se soubesse o que ninguém sabe?
É tudo bobagem! Teorias são bobagens!
Mas excitam mais que as zonas erógenas.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Brilho impessoal
Se tu tens ciúmes quando eu falo dela,
releve por obséquio tanta impetuosidade.
É que a paixão é sincera, mas é só casualidade.
É coisa que brota dos olhos e goteja na boca
Como a fruta mais desejável e carne gordurosa.
Por que eu também a desejo mais assim,
cheia, bem redonda, cintilante.
Por que o que emana paixão é beleza.
É beleza que mata e que fere.
Não me censure, então, se eu a exalto,
se a poetizo e a olho em demasia.
É que ela ofusca as estrelas.
É que hoje me faz companhia
Mas amanhã me abandona. É assim...
Sempre inconstante,imprevisível.
Me fita de chofre imóvel
e me julga sem nada dizer.
Vive na inércia do tempo,
compartilha meus devaneios,
divide minha insanidade,
me seduz sem luxúria.
Mas não se irrite; Tu és diferente!
É que a ela, o meu prazer é ver!
A ti, o meu prazer é tocar.
É ver a libido escorrendo
como orvalho rente a pele,
já que te amei mais com as mãos
que qualquer outra parte vulgar desse corpo.
Mas...olha pra ela! A ti também devia encantar!
Olha pra ela enquanto te mapeio
com cada ponta dos dedos.
Enquanto eu gaguejo no teu ouvido
falando da luz dela no teu busto.
Se ela é tão rara quanto tu.
Se em tudo são belezas.
São peças cheias de doçura
com a calda por cima que eleva
o apetite até onde não se pode mais comer.
Mas olha também pra mim,
encontrando essas pupilas
com as minhas negras e neuróticas.
Se ela é bela e transcendente,
nós dois não deixamos de ser.
Ela só voltará assim mês que vem.
Assim, cheia, redonda, cintilante.
Mas, Enquanto ela não vem
me estufo e exagero nesse outro brilho.
Esse teu brilho forte, intenso, impessoal.
Não é tão forte quanto o dela.
Nem tão intenso quanto o dela.
Nem muito menos impessoal.
Ahh passa longe de impessoal.
Mas é muito melhor!
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Coroa alva
Tantas coisas já viram estas retinas fatigadas!
Tantas milhões de vezes já pestanejaram!
Tantas milhões de imagens já capturaram!
A derrota de 50,
o regime militar,
o tropicalismo,
o milagre econômico,
o plano real,
o atentado em 2001.
E em cada minuciosa cena imposta,
a imagem menos nítida fica.
A recompensa é uma coroa alva e fina
na cabeça que tanto peso carregou,
que tantas paranoias alimentou e
agora já anuncia a hora da partida.
Cansado de tantos passos já dados
num mundo que nem sequer notou
as histórias e estórias que o mesmo se fez ver.
Não, nem precisa falar. Mostra as mãos calejadas,
marcadas no moinho de milho e no cabo de enxada.
A enxada que andava sozinha e que o alimentou.
Mas, agora, já devaneia e medita sozinho.
Troca o dia de hoje por 30 anos atrás
e como aprecia um bom jogo de conversas!
Ah velho, quem terá roubado teu sonho?
Fostes feliz ou fostes alegre?
Quem decretou a lei morte?
Quem te privou da eternidade?
Querias viver assim, pra sempre?
Quem decretou a lei que o tempo enruga a pele
e faz nascer os grisalhos da experiência?
Por que é isso que eles mostram!
Ah velho, queria eu ter tuas ideias,
teu jeito de lidar e compreender!
Mas, se assim fosse, não faria eu
as besteiras necessárias pra se viver.
No mais, que a vida tenha piedade
e te leve na ânsia do descanso.
Quanto a mim, meu velho, tirando os imprevistos,
ainda tenho muito o que viver!
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Canção pra não morrer
Eu musiquei aquele poema teu.
Mergulhei fundo nos versos finos.
Ouvia cada sílaba como procedente da tua voz
Ouvia as pregas vocais murmurando
Ao som de um solilóquio vago, mas ousado.
Simples, mas abstrato. Tão exato!
Contudo, faltam-me adjetivos.
Sim, digamos unicamente indizível.
Tanto ouvi que quis tocar.
Mas a música é arte, é sorte, é frêmito,
É terremoto que acomete a alma,
É o súbito da cura do pecado,
É a ciência mais perfeita na sua inexatidão.
Então eu musiquei...
Como a trilha sonora de um ensaio cinematográfico
Que toca na hora perfeita
E agrega os elementos mais sombrios aos mais puros
Sem pretexto ou pretensão.
Foi quando houve o silêncio.
Não aquele perturbador.
Não, foi aquele meigo que paira no ar.
Foi a fermata que veio como lembrete
De que a vida tem intervalos e pausas.
De que o silêncio é tão esplêndido quanto melodia.
E quando se vincula o acorde, a pausa
E o mais ínfimo impulso, tem-se a canção.
A canção que guarda o poema no ninho.
Acalenta e protege, tornando-o rocha.
Arpeja mil ecos de afagos.
E o teu poema era assim.
Era cálido no início e suave no fim.
Roeu minhas entranhas e inverteu cada artéria
Que quando ouvi a melodia eu musiquei
Como se eu fosse morrer se não o fizesse.
Por que o poema era teu
E tudo que é teu me encanta,
E me esmaga e me detona,
Desce, sobe, sustenido, bemol.
E cada sílaba soava em harmonia.
Mas sem pauta, sem ritmo.
Por que o poema era teu.
Meu era o êxtase. Era o ímpeto.
E eu que tentava fazer arte
Da arte que tu me emprestaste.
E eu que tocava o campo harmônico
Pra não morrer contido.
Por que a arte é assim.
Ela te vem como ninguém. Ou melhor,
Ela vem como um diabo bom que oferece o melhor,
Mas te rouba a alma como pobre esfaimando.
A arte é assim. Sempre quer algo em troca.
Quer ser livre. Quer voar.
É como aurora. É como luz.
É como raiva...Uma hora você precisa se livrar.
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