sábado, 23 de março de 2013

Marginal


Das mensagens dos muros do país
saltam pernas de letras tênues.
Saltam do cimento, da tinta clara.
Toda alforria merece saltos assim.

São obras de um marginal honrado
que pede centavos com os amigos.
Sem barraco ou condomínio
usa a arte sem domínio
na saliva da cidade.

Sabia ele que a poesia marginal
mescla a divina rotina
de dormir no frio da esquina de bar
com o merecido sonho de ter tempo pra pensar.
Era o poeta de papelão
já destacado entre os jornais
que esquetam a noite.

Pra sua alegria ou infotúnio
conheceu uma pedinte até doce.
Doce que o entrou na língua
como mulher derretida.
Dali pra frente morria de amores
com dores nas juntas
que só ela curava.

De súbito, não mais escrevia nos muros.
Nunca mais pensou em versos.
Ele a ouviu dizer que aquilo era bobagem.
Foi extirpado da essência melindrosa.
Marginal na marginal sem poesia marginal.

Uma vez passou num bairro rico
e nunca mais foi o mesmo
depois que viu num muro pichado:
"Se controlaram a tua vida,
quem é você quando vai dormir?"

quarta-feira, 13 de março de 2013

Lixeiro


Houve uma manhã de terça que eu prestei bem atenção no coletor de lixo lá de casa. Sujeito simples, de pele morena, ostentando um bigode mal feito, displicente com a máscara que devia estar acostumado em meio à tanta sujeira. E o suor brilhava na testa como alumínio na luz do sol. Sem dúvida, é um emprego que ninguém quer ter. Mas, por que o gari só ganha um salário mínimo? Foi a pergunta que permeou minha mente durante um tempo. Eu quero dizer que tem trabalhos muito menos trabalhosos em que se ganha muito mais. É claro que quando se fala em emprego pra quase nada trabalhar e faturar um bom dinheiro, se pensa logo em política. E foi isso mesmo que eu pensei. Talvez alguém diga que lixeiro foi a última oportunidade que lhe restou por não ter estudado muito. Mas o que eu faria se não tivesse ninguém pra recolher meu lixo? O que o político faria se não houvesse ninguém pra jogar fora o lixo dele? Será que ele pagaria alguém e pagaria bem pra fazer um trabalho “sujo”?
Mais do que isso, eu pensei se o lixeiro talvez tivesse um filho pequeno em idade escolar. Pensei no que ele diria no dia do trabalho onde todos os garotinhos falavam entusiasticamente na escola dos trabalhos de seus pais. E, pra esse garoto, não seria diferente. Ele ia dizer com todo orgulho que o pai é gari. Talvez os colegas de escola até zoassem, mas quando se tem um herói, você simplesmente não deixa que falem mal por muito tempo.
Com Mateus era exatamente isso que acontecia. Talvez ele até não soubesse que o trabalho do seu pai valia mais que o de muitos certos políticos juntos. Mas isso seria só mais um detalhe pra ele idolatrar mais ainda a figura paterna. Mateus só tinha sete anos e amava quando seu pai ensinava sobre como era possível reciclar certas coisas que ele nunca pensou em fazer. Ele gostava de futebol, de lasanha e de quando seu pai trazia brinquedos pra ele. Mateus também nunca soube que seu pai encontrava brinquedos bem conservados no lixo de alguns bairros de classe média e, depois de uma boa lavada, dava de presente pra o filhão. Não sei se pela felicidade de ganhar coisa nova, mas ele também nunca sentiu falta de embalagens nos brinquedos. Simplesmente ansiava quando seu pai entrava pela porta escondendo alguma coisa nas costas.
            O que contribui muito pra felicidade de Mateus é que ele só tem sete anos e não se importa com o que venham a falar de seu pai. Quando ele vê que tem comida, brinquedos e àquela hora da noite pra aprender reciclagem, tá tudo certo. Num certo dia do trabalho, a professora perguntou se Mateus era feliz com o trabalho do pai. Ele respondeu: “Não. Eu queria que ele voltasse mais cedo pra casa por que às vezes eu começo a reciclar plástico sozinho e erro o corte. Ele é a única pessoa no mundo que saber consertar.”

terça-feira, 5 de março de 2013

Ser


Antes de me tornar suicida
quero ser cura de depressão.
Ainda quero ser silêncio,
desordem, sepulcro místico.

Antes de qualquer cigarro
quero ser fumaça em formação.
Porque não saudade de um tempo
morto, de lembrança torta?

Antes de me tornar bandido
quero ser mordido pelo infortúnio.
Quero ser acorde belo de violão.
Talvez um dó com nona.

Antes de fazer sentido,
quero poder não ter certeza
que quando se tem certeza
é bem melhor de se viver.

Antes de me tornar prolixo
quero mandar poemas pro lixo.
Quero sentar na varanda
e ser, talvez, pombo preto.

Antes de ser eleito
como o maior metódico da vez,
quero morrer de anseios,
ceias fartas e fartos seios.

E se é pra morrer
Que eu morra de amargura.
Que seja lentamente quente
com pincel multicolor
numa pintura de Debret.
Pois, sou a soma do que não veio.
O silêncio que não se fez.
O mistério que desvendaram.
E se já me encontraram
qual o objetivo de buscar?

Antes de me tornar suicida
quero ser suicida.
E assim, talvez,
a contradição seja a vida
que eu sempre procurei.