domingo, 26 de maio de 2013

Vitória

Sábado, 25 de maio de 2013, dia de sol forte depois de uma chuva amena no início da manhã. Foi quando eu conheci Vitória; dando-me o prazer de olhar naqueles olhos enquanto ela falava. O encontro foi um total acaso e, eu até atribuiria essa casualidade ao destino, se eu acreditasse nesse conceito solitário sem sentido que limita a compreensão humana. De qualquer forma, Vitória é uma menina encantadora, tem metade da minha idade, é filha única, gosta de vestir roupas coloridas. Não, não que ela goste de muitas cores nas peças de roupa. Só que ela gosta de muitas cores no corpo, o que a impele a usar, por exemplo, uma blusa laranja cintilante, com uma calça rosa bebê e talvez umas meias bem estampadas. Ah, ela tem também uma doença crônica nas pernas que não lhe permite andar sozinha desde sempre, já tendo passado por duas cirurgias. Mas esse não é o fato mais importante sobre Vitória, uma vez que as deficiências geralmente são o fato mais importante sobre as pessoas que carregam esse fardo. Não, o fato mais importante sobre Vitória é o sorriso que ela ostenta no rosto como seu maior troféu. Sabe aquelas pessoas que tem algum tipo de deficiência psicológica e ri com tudo? Então, esse é o caso. Não, o caso não é que Vitória tenha alguma deficiência psicológica. O caso é que essa moça se mostra tão feliz que quase tudo é motivo de riso pra seus lábios finos. É como encontrar no mundo amargo uma paz quase que única dentro de um instante fugaz.
Há quem diga que o sorriso é contagiante e eu até concordo bastante, mas até hoje eu nunca vi nenhum como o dela. Não é só comigo, mas é instantâneo. Ela ri e você ri junto como se tivesse ligado no “automático”. Na verdade, é impossível não sorri só de lembrar do seu riso frouxo. E de falar em tanto ri e não ri, a única coisa que eu consegui fazer ao conhecê-la foi comparar. Comparar a existência das pessoas, os problemas das pessoas e, mais do que tudo, o valor que damos aos problemas. É claro que meus pequenos descontentamentos não são um grão de areia comparado ao seu infortúnio de querer andar e não conseguir. É que eu fiquei imaginando Vitória nos seus onze anos de existência, por exemplo, pedindo a mãe para levá-la ao banheiro de trinta em trinta minutos. Imaginei talvez, a sua dependência de alguém para guia-la em qualquer espécie de situação. Quando eu pensei se fosse comigo, de não poder talvez sair em um dia qualquer no meio da tarde pra caminhar por aí sem rumo, a sensação foi bem desagradável.

De qualquer forma, sem dúvida a coisa mais importante sobre Vitória é seu sorriso. Não é nada forçado. É uma felicidade que ela emana de todas as pequenas coisas que se passam em sua mente. De todos os detalhes compreendidos no seu mundo que, pelo visto, engloba um exército de afetos. Ao que parece, ela se realiza nas coisas que pode fazer, em vez de se torturar pensando no que não pode. E se no meu sincero otimismo eu aprendi algo muito importante dessa menina, mais do que isso, lamentei os inúmeros sujeitos que reclamam de viver por causa de dramas e das fugas do tédio sem significado. Lamentei os desafinados nas notas mais simplórias de alegria. Lamentei a lamentação dos miseráveis que mais lamentam sem motivo por falta do que fazer. Mas foi só por instante, porque quando Vitória abria o sorriso, eu só pensava em sorrir também e não tive tempo pra lamentações. 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Já não devera dizer

As palavras, objetos tão aquém
Um turvo entalo sufocante,
Corresponde aquelas imagens
Um afago, um gesto imundo
Das carícias insanas

As considero assim
Depois daquelas que
Desfizeram o desfeito...
Pedaço errado, incompleto e inconstante
Instante marcado dos ares irrespiráveis...

Torna o eterno a animosidade
Advinda de outrora
Olhos fechados, recusara hostilidade,
Precediam graduante consternação
Imposta aos segundos, séculos torturantes

Tortura e atenuante
Até as faltar-te, por conseguinte
Honestas e encobertas, debaixo
Da máscara soberba, longe da ousadia
De rasgar a vontade do não incidir...

Postas aquelas maquiadas
Únicas, solenes malditas e tristes
Preservando oculto o grito
Prolonga e tenta não acolher
O acaso esperado, abriga e destrói

Vagar até absorver o incontido
Especulações que não denunciam porquês
Impostas ao aceitável inaceitável
O limite sessa, visto uma torrente e
Cai a máscara, fora aos braços a procura de alívio.
(Poema de Ana Lísia)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Arcabouço de um abraço


O abraço é a aspirina da solidão
com seus tentáculos mirabolantes
oscilando entre o ataque e a defesa.
Parece um anjo de asas longas
que mede o teu cansaço
e alivia cada pedaço de impureza
que se dissolve no corpo.

O abraço cheio é divino.

Que das gordinhas eu prefiro,
nunca saiu no jornal
mas até o açogueiro sabe.
Quando os braços cercam a carne
mas sobra espaço pra apertar.
E sobra querendo conter
como poeta louco que só sossega
quando descarrega tudo no papel.

O abraço assim de tanta pele
dá gosto de infinito com travesseiro.
A vontade é de apalpar tudo
mesmo sem conseguir dar conta.
É uma viagem longa só de ida
pra ilha de Tristan da Cunha.
O peito descansa como um gato
com a preguiça em cima do dono.

O abraço magro é delicado.

É um vaso que se segura com cuidado
e, mesmo que agarre, falta espaço.
Falta porque os braços se encontram
como se tomasse um caminho diferente
e fosse acabar no mesmo lugar.
É acalentar no peito o rosto doce
com o cuidado de bebê faminto.

O abraço assim de pouca pele
dá gosto de fragilidade com consumo.
A vontade é de puxar rente ao corpo
como se fosse entrar um no outro,
como se tudo fosse fugaz,
como se tudo fosse abstrato e,
no final, o que fica é mais vontade
como missão não cumprida.
É viagem de ida e volta.

Sim, o abraço cheio é divino,
mas é que eu encontrei
em braços magros e em pele pouca
O lugar mais confortável do planeta.
E se o mundo descobre o poder que ela tem
com esse acariciar de neve,
será mais requisitada
que a paz em meio à guerra.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Tanto a declarar


Quem me dera que os anúncios de liquidação
fossem astros luminosos à vista
e à prazo fosse o tempo que me resta pra dizer
tudo que se entope na garganta.
Tudo que é preciso e, precisamente, não digo
esperando o segundo ato com medo do epílogo.
Já vi que há certas orações que, se não ditas,
o miocárdio sangra até morrer.
Conclusivamente, me declaro
sem tanto a declarar.
É que tem gente que me desassossega
com a fala tanta e leve,
com o gosto bom do mundo.
O gosto que Drummond sentiu.
O gosto que matou Romeu.
Que tanto roga em mim
o doce que o amargo faz
quando eu olho fundo.
Essa gente que deixa um som desafinado,
que inventa as cores de um abril chuvoso
e tudo ouve e tudo vê.
E eu vou contra a poesia
sem hipérbole nem clichê.
Nem vou me anunciar perdido
como se não vivesse sem ela.
Mas o sol ainda nasce naquela brecha
e ainda cabe entre nós dois.
Ainda tem aquele beija-flor no quintal
que tanto enfeitava a tarde.
Ainda tem o vento soprando forte
e eu ainda subo pra ver da janela.
Mesmo assim, eu não disse nada.
É que já são 3 da madrugada
e eu ainda fico pensando nela.