domingo, 28 de abril de 2013

O roubo é culpa do acaso


Uma vez me perguntaram se eu já tinha roubado alguém. De alguma maneira, pensei logo que houvesse mais de um sentido envolvido na resposta e pedi mais especificidade. Ela queria saber não se eu já tinha roubado algo de alguém, mas se eu já tinha roubado alguém de si mesmo. É quando você sente roçar na pele um furacão que se demora a entender. Quando perde o senso da normalidade e se joga tão profundamente no abismo que mal vê o chão chegando mais perto e, quando vê, já caiu. Quando já levaram aquilo que tu era e trouxeram cacos coloridos de paz e tormento, desassossegando a alma como vira-lata barulhento que tira o sono na madrugada. Eu respondi que não, nunca, na modéstia que eu quase nunca apresento e quase nunca me visita. Porque é preciso ter muita garra pra roubar, ter muita coragem, ousadia e pairar no ar como uma música que toca mesmo quando não quer. Eu nunca fui de roubar ou talvez tenha feito isso uma vez ou duas. Na realidade, é mais qualificado como furto do que roubo, uma vez que suavemente a pessoa chega, devagar, entra sem avisar e leva a teu drama de estar só. Já o roubo é violento e ameaçador, desprovido de sutilezas e cordialidades. Amordaça a vítima sem delongas que mal quer, mas quer e, de repente, acaba numa venda irrefletida sem o valor merecido.
                Ao passo, porém, que respondi se eu já tinha roubado, fiquei pensando se já haviam me roubado. De início pensei que sim, talvez uma ou duas vezes também. Teve aquela que sempre deitava comigo pra ver as estrelas e eu a enchia dos clichês que eu guardo como colecionador, ou como babaca, dependendo do ponto de vista. Uma vez numa noite de lua cheia, quando ela percebeu que eu fitava mais aquele círculo dourado do que ela mesma, me perguntou se eu gostava mesmo de olhar pra lua. Eu disse: “é como se as estrelas fossem todas as mulheres do mundo e a lua fosse você”. Na sua infinita inocência, disse que tinha sido a coisa mais bonita já dita pra ela. Eu bem que venerava o cheiro da noite no seu colo com o escuro como aliado. Mas pouco a pouco ela foi perdendo o brilho de luar e refluindo na sua imensidão. Hoje é só mais um astro luminoso como todos os outros. É até bonito de se ver, com uma exclusividade, porém, questionável.
                A parte louca é que nunca se sabe se é bom ou ruim ser roubado, sendo o coração traiçoeiro fundado num corpo sentimental carregando os tons do mundo nas costas. Mas sempre tem aquele anjo torto que te faz tirar os pés do chão e olhar bem pra o que não se viu ainda. Ainda mais quando não se espera a falta que faz as palavras faladas de certos lábios finos, a falta que faz o abrir doce de certo sorriso e certas teorias – as mais infundadas e mais divertidas possíveis. É só obra do acaso se comportando indiscretamente. Dia desses, a minha vizinha de quatro anos, que por sinal passa muito tempo na minha casa, me encarou por um bom tempo e perguntou se eu estava apaixonado. Extremamente surpreso pela indagação súbita, mas ao mesmo tempo achando escandalosamente fofa aquela pergunta de uma menininha que eu vi nascer, eu questionei na hora o motivo de ela me perguntar sobre isso. Ela disse, como se já tivesse uma resposta ensaiada: “é que você fica rindo o tempo todo pelos cantos que nem bobo”. É estranho como as crianças hoje se conectam à realidade com muito mais acessibilidade. E mais estranho foi ter a certeza da qual eu apresentava muitas desconfianças; de que eu havia sido roubado.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Quarto liquidificado


Era um mar de delicadezas
dentro de um quarto na chuva.
Era um desgosto bonito
num centro com a rosa murcha.
Era cinzento o jeito que caía,
o jeito que escorria os pingos,
o jeito que eu olhava da janela.
Era uma alma deserta
que diluia o remorso das palavras.
Era contada a paciência do relógio.
Era um distúrbio esdrúxulo na minha retina.
Era um poço raso onde eu guardava
tuas frases. Algumas pra relembrar, talvez,
nessas horas de idoso tetraplégico.
Tinha um xadrez que movia
do canto pro meio.
Tinha uns livros na mesa
e todos com um cheiro teu
de amêndoa doce.
Tinha um piano que me acompanhava
mas só tocava deitado no vento.
Tinha lá na parede escura
um desenho do meu disco favorito.
Tinha um escrevinhador de garagem.
Tinha a dança de um par de grilos.
Tinha um verso torno num caderno aberto
com a tua caligrafia antiga.
Tinha um silêncio alheio
disputando espaço.
Tinha tua careta na moldura.
Tinha um origami que tu guardou
na estante, mas era meio vazio
como se faltasse uma dobra.
Tinha um vinho barato e uma bala de menta,
e tinha tanta presença
que tudo era ausência
da tua mão fria na minha
e eu mal podia esperar pelo amanhã.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Saudade pós moderna


Nessa incontestável era pós-moderna
de insetos rodeadores de luz,
quem sou eu quando paro
quando sarro o meu violão?
Quando a tropa maior que a de Roma
invade e saqueia mente pobre
em amargura doce e leve.
E bem que eu podia ter
uma máquina de escrever
pra expulsar assim de noite
esses poetas de computador.
Ou pelo menos expulsar uma menina
que metodicamente passa por aqui
sempre essa hora, sempre exclusiva.
E bem que eu podia assim de madrugada
rasgar o silêncio com as teclas de ferro,
fazer um chá pra tua inteira pessoa
e tomar sozinho, que nada é pra agora
e nada é tão racional como solidão.
E saudade é tanta,
é morna, é velha
é rouca, é bronca.
Tem jornada longa em sinapses tantas
que mistura cachaça com ácido clorídrico
E só tem uma ideia jogada no ar.
Talvez nem o pai da psicanálise
nem doutor, nem filósofo,
nem o mestre da mente
cure a moléstia de estar só assim
como louco desvairado
em estado alavancado
de uma rosa sem jardim.
Nem se mistura palavras
em potes de leite em pó,
nem se mistura paixão
em noites de lua só.
É decreto, portanto,
que em meio à tanta saudade
jogue tudo em datilografia.
Pois antes tarde do que nunca.
Antes arte do que eu.

sábado, 6 de abril de 2013

Marco territorial


Minha pose de discórdia
já marca o território
na barriga fina,
no umbigo fundo.
Sente asco à concorrência,
sente medo da perda.
Sinto muito, mas sinto tanto
que tua ausência
é um tanto quanto melindrosa,
pra não dizer que a falta em mim
é bem mais do que tu.
Minha pose de discórdia
já marca território
no teu quadril e na boca torta.
Se faz mal querer,
mal maior é o exclusivo.
O mundo não sou eu, meu bem.
Eu quero exclusividade
mas quero sem razão
e onde falta razão
certamente falta amor.
Falta mais ainda no teu colo
minha cabeça desatinada,
meu drama rente à novela,
meu esquema doido
de diluir o bom senso.
Acho que já chega
de tanta fala grossa,
tanto dito logo,
tanto mesmo quando,
tanto eu, portanto,
e tanto tu, sem tanto.
Antes fosse eu
antes fosse tu
mas se gente fosse propriedade
tinha que pagar IPTU.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Branco


Todo branco um dia cansa
de insistir em ter-se nada.
Toda onda será mansa
no entortar da madrugada
onde o branco será pouco
sem tintura no papel
e o santo do pau oco
reza para alguém no céu.

Pede pra encontrar um verso
que ali deve se achar.
Seja plácido ou perverso,
seja pétalas de mar.
Só se sabe que afinal
todo branco esconde arte
na entrelinha ou marginal
do sujeito em qualquer parte.

Afinal, se tem final
rima dia amargo fosse,
ora insólito, normal,
branco verso fica doce.

[E num dia qualquer fez-se tudo
onde a raspa de madeira anuncia
que a ausência é só uma presença
escondida em novas velhas miragens.
Mas se do branco tanto enfim tende a crescer,
o que será de mim quando eu vier a escrever?]