Uma vez me
perguntaram se eu já tinha roubado alguém. De alguma maneira, pensei logo que
houvesse mais de um sentido envolvido na resposta e pedi mais especificidade.
Ela queria saber não se eu já tinha roubado algo de alguém, mas se eu já tinha
roubado alguém de si mesmo. É quando você sente roçar na pele um furacão que se
demora a entender. Quando perde o senso da normalidade e se joga tão profundamente
no abismo que mal vê o chão chegando mais perto e, quando vê, já caiu. Quando já
levaram aquilo que tu era e trouxeram cacos coloridos de paz e tormento,
desassossegando a alma como vira-lata barulhento que tira o sono na madrugada. Eu
respondi que não, nunca, na modéstia que eu quase nunca apresento e quase nunca
me visita. Porque é preciso ter muita garra pra roubar, ter muita coragem,
ousadia e pairar no ar como uma música que toca mesmo quando não quer. Eu nunca
fui de roubar ou talvez tenha feito isso uma vez ou duas. Na realidade, é mais
qualificado como furto do que roubo, uma vez que suavemente a pessoa chega,
devagar, entra sem avisar e leva a teu drama de estar só. Já o roubo é violento
e ameaçador, desprovido de sutilezas e cordialidades. Amordaça a vítima sem
delongas que mal quer, mas quer e, de repente, acaba numa venda irrefletida sem
o valor merecido.
Ao
passo, porém, que respondi se eu já tinha roubado, fiquei pensando se já haviam
me roubado. De início pensei que sim, talvez uma ou duas vezes também. Teve aquela que
sempre deitava comigo pra ver as estrelas e eu a enchia dos clichês que eu
guardo como colecionador, ou como babaca, dependendo do ponto de vista. Uma vez
numa noite de lua cheia, quando ela percebeu que eu fitava mais aquele círculo
dourado do que ela mesma, me perguntou se eu gostava mesmo de olhar pra lua. Eu
disse: “é como se as estrelas fossem todas as mulheres do mundo e a lua fosse você”.
Na sua infinita inocência, disse que tinha sido a coisa mais bonita já dita pra
ela. Eu bem que venerava o cheiro da noite no seu colo com o escuro como
aliado. Mas pouco a pouco ela foi perdendo o brilho de luar e refluindo na sua
imensidão. Hoje é só mais um astro luminoso como todos os outros. É até bonito
de se ver, com uma exclusividade, porém, questionável.
A
parte louca é que nunca se sabe se é bom ou ruim ser roubado, sendo o coração
traiçoeiro fundado num corpo sentimental carregando os tons do mundo nas
costas. Mas sempre tem aquele anjo torto que te faz tirar os pés do chão e
olhar bem pra o que não se viu ainda. Ainda mais quando não se espera a falta
que faz as palavras faladas de certos lábios finos, a falta que faz o abrir
doce de certo sorriso e certas teorias – as mais infundadas e mais divertidas
possíveis. É só obra do acaso se comportando indiscretamente. Dia desses, a
minha vizinha de quatro anos, que por sinal passa muito tempo na minha casa, me
encarou por um bom tempo e perguntou se eu estava apaixonado. Extremamente
surpreso pela indagação súbita, mas ao mesmo tempo achando escandalosamente
fofa aquela pergunta de uma menininha que eu vi nascer, eu questionei na hora o
motivo de ela me perguntar sobre isso. Ela disse, como se já tivesse uma
resposta ensaiada: “é que você fica rindo o tempo todo pelos cantos que nem
bobo”. É estranho como as crianças hoje se conectam à realidade com muito mais
acessibilidade. E mais estranho foi ter a certeza da qual eu apresentava muitas
desconfianças; de que eu havia sido roubado.