domingo, 24 de fevereiro de 2013
Malandragem egoísta
Tudo que vem é bem melhor do que se tem.
Eu tenho luz elétrica o tempo todo.
Mas quando falta luz e ela volta,
o bairro inteiro vibra comigo.
É a fuga do infortúnio.
Se fulana volta comigo depois de uma semana,
é melhor do que passar dois meses juntos.
A volta é melhor. É nova, é divina,
é centrada, é irreal, é mirabolante.
Mas fulana muito me agrada.
Por isso prezo essa afeição marginal
de literatura pichada no muro.
Meu querer é tanto que me afaga
essa linha tênue de reconciliação.
Se a alforria grita lá da frente,
pra quê tanto aperreio em lentidão?
Se eu só falo uma língua e ela é tua,
pra que tu atua de emotiva ao coração?
Nossa arte, meu bem, é rir um do outro
na metade do almoço e depois da discussão.
Talvez nem o ramo mais sofisticado da Hermenêutica
entenda esse misto de prazer e negação.
Dessa malandragem egoísta.
Por que pode não ser amor,
mas eu sei que essa doideira de amor
é como estrada esburacada.
A passagem é complicada,
mas tu tem que passar.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Talvez olhares sejam precisos
Quem vai negar o prazer que sente em olhares sinceros? A minha curiosidade agora é vício. Vício de olhar para as pessoas na rua, de perscrutar bem no fundo e adivinhar a alma com delicadeza. O que também sempre vem acompanhado da censura dos amigos e da reclamação: “Pára de encarar os transeuntes. Um dia você ainda vai encontrar um cara mal humorado daqueles que te arrebentam só de olhar pra eles.”
Na verdade, a minha rotina não é encarar ninguém. Não é lançar olhares de cobrança, casualidade ou inconveniência. Se bem que também não nego o prazer que é causar um pouco de impacto, daqueles amenos, mas confusos. Bem confusos. Foi o que me levou ao vício insólito de mirar bem nos olhos dos transeuntes. Costume esse que considero um elogio. Um olhar só por olhar, sem pretensão, sem fingimento. E o paroxismo desse vício é ler naqueles olhos desconhecidos a confusão. É quando eles começam a se perguntar se talvez me conheçam, por que eu seguro meus olhos neles, se seus cabelos talvez estejam embaraçados, ou mesmo só me chamam de indelicado. Isso tudo se percebe nos olhos. Não precisa ser um bom observador pra notar.
Sim, é esse o meu contentamento. Mas ainda considero um elogio. É que ninguém sabe mais o que são olhares profundos nessa realidade trivial. É justamente pelos costumes que me contento e me limito nestas retinas. O que se vê hoje são olhares orgulhosos e humilhados. Basta observar durante quinze minutos uma praça movimentada. Já é sabido que os orgulhosos não baixam a cabeça. Quem dirá o olhar! Os orgulhosos andam com olhos que dizem: “Estou passando e não me olhem. Longe está de vocês, ordinários, merecerem me fitar.”
Os humilhados são outro tipo que eu não invejo. Com suas capacidades escondidas e seus egos traídos, fingem que não existem. São como catatônicos afundados na lama. Os humilhados andam com olhos que dizem: “Estou passando, mas não olhem pra mim. Presta atenção naquele pombo. É melhor que se concentrar na minha existência inútil.” Os humilhados gostam de não olhares, não por discrição, mas, por vergonha. E não é um simples pudor natural, mas uma vergonha horrenda de sua própria pessoa, de quem ele é, e até do que possivelmente venha a se tornar.
Esse é o meu motivo. Não à guisa de desculpa, mas é o motivo do meu vício de mirar com gosto em olhos desconhecidos. Já cansado de olhares orgulhosos e humilhados, me sinto na obrigação de bater de frente com a displicência da linguagem corporal. É só uma daquelas atitudes que eu espero que mude no mundo, a começar por mim mesmo. O simples fato de ter mais olho no olho.
Dia desses, eu acabara de chegar à minha velha praça para esperar o ônibus (Onde na verdade não existe um local específico para a parada do ônibus. O que se sabe é que ele aparecerá na praça.). Cheguei andando devagar concentrado em alguma coisa que não tenho nem idéia do que tenha sido. Por fim, parei bem de frente pra calçada onde geralmente ficavam as pessoas à espera. É, parei de frente, mas não fui até lá. Eu não sou esse tipo de sociável que senta perto das pessoas. Eu gosto de sentar distante pra observar sem ser notado, como um carnívoro em volta da presa. Pode parecer uma comparação grosseira, mas que se dane, é bem por aí. O fato é que eu ainda estava parado. Não tinha ido sentar perto de quem esperava e também não tinha sentado em lugar algum. Só tinha parada vendo de relance algumas pessoas ao redor.
De chofre, me virei um pouco e, ainda perto de mim, estava uma moça um tanto quanto ensimesmada, eu diria. Ainda me pegava na distração, mas, ao que parece, inconscientemente cedi ao vício de olhar bem pra ela. Até então, ela quedava também de pé como se esperasse alguém que acabara de sair e fosse voltar logo. Não sei. Também não parecia ser alguém tão diferente em nenhum aspecto, exceto pelo olhar. Não sei se era a beleza dos olhos ou o modo como ela devolvia exatamente pra mim, coisa nada corriqueira nesse meu costume trivial.
Continuei lá parado algum tempo sem perceber, ainda segurando os olhos em cima dos dela como se não existisse mais nada. Não faço ideia de quanto tempo durou aquele impetuoso desatino, mas creio ter sido bastante. Além dos olhos pedrados, ainda movia um sorriso meia boca e um espanto diferente. Um espanto, não de assustada, mas de curiosa. De súbito, escapou algumas palavras da sua boca:
— Sua mãe não te ensinou que é feio encarar desconhecidos?
Ela falou sem grosseria como se estivesse continuando uma brincadeira começada por mim. E ainda ostentava o sorriso meia boca. Foi como se as palavras tivessem me despertado de um transe. E eu, na verdade, tive que pensar um pouco pra conseguir distinguir e entender as sílabas, mesmo depois de ditas.
—Me ensinou coisa melhor, disse eu. Olhe bem nos olhos pra saber em quem confiar, é o que ela sempre dizia. Pode parecer clichê, mas talvez seja um axioma.
—Humm... e será que em mim se pode confiar?
—Talvez!
—Talvez não é resposta.
—O que importa são as perguntas. (Eu admito que falei num tom de petulância sim, mas, depois de alguns segundos, ela continuou...)
—Ahhh...quer dizer então que você é um seguidor de Voltaire metido a sabichão que encara desconhecidos?
—Quer dizer então que você é uma anarquista sedenta de respostas que fala com desconhecidos?
Depois de mais um sorriso confuso, ela pergunta com uma curiosidade única:
—Como você sabe que eu sou anarquista?
—Quem mais usaria uma blusa escrita “morte ao governo”?
Ela gargalhou como se fosse a última vez que achou algo engraçado, porém, por pouco tempo. Segurou ainda o ar de mistério oferecendo o preço da dúvida e acrescentou:
—É...talvez eu seja.
—Percebe?(Eu continuei) “Talvez” é resposta pra tudo. No dia que o homem descobrir a beleza que a dúvida tem, a gente vai ter mais liberdade do que a ave que domina os mais altos céus.
Depois dessas últimas palavras, eu só permaneci também no riso fraco e saí sem despedidas. Minha carona ia chegando, mas antes de dar uns três passos pra frente, eu ouvi novamente aquela voz chamando como se o desconhecido que ela acabara de trocar palavras tivesse esquecido alguma coisa. Eu me virei um tanto quanto displicente e, ela, dessa vez sem aquele ar de superioridade e de mistério, porém com uma expressão quase suplicante e intrigante, tentou logo parecer novamente não tão interessada em conversa e disse:
—Você ainda não me disse seu nome.
—Justamente. Agora por meio da dúvida, eu vou habitar não só os seus pensamentos, como suas questões. Você não só vai se lembrar desse louco, como vai torturar sua mente pra descobrir quem ele é, por que conversou contigo e onde arranjou tanta arrogância pra bancar o pedante diante de uma anarquista. É isso. Não vou dizer meu nome, mas quem sabe um dia, talvez, você saiba até o número do meu sapato.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Só gente babaca escreve
Meu irmão escreve pra espantar fantasmas.
Minha amiga escreve por que vive de amores.
Meu primo nunca pega no lápis, fala tudo no computador.
Minha vizinha mal aprendeu a ler, se lambuza no diário.
E todo mundo bate na cara das palavras com a pontuação.
Sangra e transborda aquele amontoado de dedicação
à mentira que o coração inventa
ou à história que a canção lamenta.
É só gente babaca que escreve.
Que não suporta as vozes petulantes,
que migram da cabeça pra o papel,
que vão além do relevo da alma,
que transpassa o perigo de viver.
Como se não bastasse a babaquice,
vem a dor de dente mendigando atenção.
Como se tudo isso não fosse só um pedido de atenção!
Aí escrevem pra espantar fantasmas.
Escrevem por que vivem de amores.
Fazem prognósticos por via das dúvidas
e toda essa amálgama é alforria.
Aí eu escrevo, você não gosta e ninguém liga.
Por que talvez essas ideias loucas
que pungem as artérias, matem o bandidos
que apontam a arma pra têmpora suada.
Talvez o verso seja tão lacônico
que transforme a poesia em arames farpados.
Mas é também tão gostosa como um café de tarde
e silêncio de manhã.
A conclusão, tudo sendo consumado,
é que eu escrevo, você não gosta, ninguém liga,
todos são babacas e, principalmente eu,
que não suporto retardados dialogando aqui dentro.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
À meia luz
Pode confessar que você ama
esse efeito de vinho no sangue,
essa baba escorrendo na boca,
o mamilo duro feito pedra,
esse cabelo embaraçado,
a água salgada que escorre dos poros.
Confessa que ama essa hora do dia,
o escuro chamando pra zona de decisão,
a pia repleta de louça suja,
a parede amarelada na meia luz,
o hábito de esquecer a porta aberta,
o livro do lado pra espiar.
Confessa que morre por essa rotina,
que grita pela minha mão,
que briga pelo chocolate,
que chora por uma mordida,
que jura pureza visceral
e treme de medo de borboleta.
Confessa que gosta da casa,
de qualquer lugar entre as paredes,
de ser perscrutada na mesa, na pia,
no chão, no sofá, na biblioteca,
da euforia no fim da noite
e do queijo que engana a fome.
Confessa que me aprendeu sem dar razão,
que insiste em suscitar meu delírio hipnótico,
que me aterra de manhã e me esfaqueia de noite,
que morre, mata, sangra e despenca
por uma gota de orvalho que brota
debaixo do umbigo.
Por carne, unha, dentes e pelos
compenetradamente movidos por
insetos pegajosos de movimentos
repetidos na insanidade do escuro.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Comunicação não verbal
(Crônica de Graziela Leite)
Desde que chegou aqui ela não mudou muito, embora tenha observado certa evolução. Como sempre, ela apenas vivia olhando para o vago horizonte. Ninguém sabe ao certo o que se passava em sua mente. Um olhar distante, imenso, como se ela estivesse aprisionada aos seus pensamentos. Repetia sempre o mesmo movimento o dia todo. Seu olhar distante sentada no canto do quarto, movimentando-se para frente e para trás. Clarice (era o nome dela), não se comunicava com ninguém, não se aproximava, ao menos permitia a aproximação de outros.
Sempre tivemos nossas dúvidas com relação a ela, era do tipo de paciente que nunca sabíamos a hora exata de nos aproximarmos. Nunca falava, se quer respondia a nossas perguntas. Sua vida era um verdadeiro mistério, ela era um verdadeiro mistério. Não se sabia absolutamente nada sobre ela. Salvo que havia um número de telefone na sua roupa, obviamente tentamos contato com este número. Era de uma mulher que na verdade dizia ser uma cliente de Clarice. Descobrimos que Clarice era uma advogada muito conceituada. No entanto em relação a sua família ela já não sabia informar.
Clarice chegou aqui suja, uma pobre alma atormentada. A única coisa que dizia era seu nome repetidas e repetidas vezes. A acolhemos e fizemos sua análise, ela então foi diagnosticada com Esquizofrenia. Todas as vezes que cheguei perto de Clarice percebia que ela escondia uma profunda tristeza e, é claro, rejeição. Levou tempo para que ela permitisse que alguém chegasse perto. Ela chegou muito machucada. Seu corpo apresentava indícios de ter sido violentada, talvez isso explicasse sua rejeição mediante a aproximação de todos. Foi um processo longo e difícil. Todas as vezes que tentei aproximação ela sempre se afastava como se fugisse de mim. Sempre tentei fazer com que ela respondesse às minhas perguntas, mas nunca dizia nada, nenhum gesto afirmativo ou negativo.
Sabíamos que saber sobre sua vida seria essencial para seu tratamento, mas não tínhamos como. Dias se passaram e começamos a perceber que uma mulher observava Clarice (as vezes que ela se permitia sair). Então, em um determinado dia lhes perguntei por que a observava tanto. Logo respondeu que a havia conhecido e contou-me a história de Clarice. Disse que ela de fato era advogada, era casada e seu sonho era ter um filho, porém, sem saber as razões, seu marido não queria. Ainda assim ela engravidou e logo abortou o filho que tanto queria, espontaneamente, após uma briga com marido, logo quando anunciou sua gravidez. Então se divorciou. Com relação aos outros parentes, Clarice não se comunicava com eles, não tinha um bom relacionamento. Acabou se trancando em um apartamento e, não se permitindo mais trabalhar, acabou com todas suas economias. Despejada, sem ter onde morar vagou pelas ruas. Terminou dizendo que soube de Clarice depois que ela estava aqui no hospital, por acaso a viu quando passou por aqui. Agradeci por tudo que contou e, em seguida, foi embora.
Logo em seguida, fui até Clarice. Tentei perguntar sobre sua vida novamente. Dessa vez apresentava-se ainda mais inquieta. Não queria ouvir. Foi quando então falei do seu filho. Ela olhou profundamente para mim. Percebi que Clarice se lembrava de sua vida. Mas sua dor não deixava que ela falasse sobre esta. Depois que falei, seu olhar e sua expressão de sofrimento pairavam sobre mim. Senti que toquei na sua profunda ferida. Então a abracei. Pela primeira vez, ela permitiu uma aproximação de fato concreta e afetiva. Não podia dizer mais nada, pois aquele momento já falava por si só. Aquele olhar de Clarice entregou toda sua história, toda sua vida, que tantas outras vezes não pude perceber. O toque daquele abraço junto com sofrimento dela ressentido há tanto tempo, me fez perceber que não precisava de muito para quebrar aquela barreira posta a nós.
Nem é preciso dizer que após aquele dia nunca mais fui a mesma. Clarice voltou a falar, poderia até dizer que reaprendeu, fez seções com fonoaudiólogo. Mas enquanto adaptava-se a falar, novamente e normalmente como antes, escrevia. Infelizmente não posso dizer que se recuperou totalmente da patologia, porém houve um grande avanço, pois já não apresentava mais quadros de alucinações ou delírios. Já era possível comunicar-se melhor. Certa vez ela me mostrou uma frase que dizia: “Permiti-me, um dia, me aprisionar na insanidade, para fugir da dor”.
Sempre tivemos nossas dúvidas com relação a ela, era do tipo de paciente que nunca sabíamos a hora exata de nos aproximarmos. Nunca falava, se quer respondia a nossas perguntas. Sua vida era um verdadeiro mistério, ela era um verdadeiro mistério. Não se sabia absolutamente nada sobre ela. Salvo que havia um número de telefone na sua roupa, obviamente tentamos contato com este número. Era de uma mulher que na verdade dizia ser uma cliente de Clarice. Descobrimos que Clarice era uma advogada muito conceituada. No entanto em relação a sua família ela já não sabia informar.
Clarice chegou aqui suja, uma pobre alma atormentada. A única coisa que dizia era seu nome repetidas e repetidas vezes. A acolhemos e fizemos sua análise, ela então foi diagnosticada com Esquizofrenia. Todas as vezes que cheguei perto de Clarice percebia que ela escondia uma profunda tristeza e, é claro, rejeição. Levou tempo para que ela permitisse que alguém chegasse perto. Ela chegou muito machucada. Seu corpo apresentava indícios de ter sido violentada, talvez isso explicasse sua rejeição mediante a aproximação de todos. Foi um processo longo e difícil. Todas as vezes que tentei aproximação ela sempre se afastava como se fugisse de mim. Sempre tentei fazer com que ela respondesse às minhas perguntas, mas nunca dizia nada, nenhum gesto afirmativo ou negativo.
Sabíamos que saber sobre sua vida seria essencial para seu tratamento, mas não tínhamos como. Dias se passaram e começamos a perceber que uma mulher observava Clarice (as vezes que ela se permitia sair). Então, em um determinado dia lhes perguntei por que a observava tanto. Logo respondeu que a havia conhecido e contou-me a história de Clarice. Disse que ela de fato era advogada, era casada e seu sonho era ter um filho, porém, sem saber as razões, seu marido não queria. Ainda assim ela engravidou e logo abortou o filho que tanto queria, espontaneamente, após uma briga com marido, logo quando anunciou sua gravidez. Então se divorciou. Com relação aos outros parentes, Clarice não se comunicava com eles, não tinha um bom relacionamento. Acabou se trancando em um apartamento e, não se permitindo mais trabalhar, acabou com todas suas economias. Despejada, sem ter onde morar vagou pelas ruas. Terminou dizendo que soube de Clarice depois que ela estava aqui no hospital, por acaso a viu quando passou por aqui. Agradeci por tudo que contou e, em seguida, foi embora.
Logo em seguida, fui até Clarice. Tentei perguntar sobre sua vida novamente. Dessa vez apresentava-se ainda mais inquieta. Não queria ouvir. Foi quando então falei do seu filho. Ela olhou profundamente para mim. Percebi que Clarice se lembrava de sua vida. Mas sua dor não deixava que ela falasse sobre esta. Depois que falei, seu olhar e sua expressão de sofrimento pairavam sobre mim. Senti que toquei na sua profunda ferida. Então a abracei. Pela primeira vez, ela permitiu uma aproximação de fato concreta e afetiva. Não podia dizer mais nada, pois aquele momento já falava por si só. Aquele olhar de Clarice entregou toda sua história, toda sua vida, que tantas outras vezes não pude perceber. O toque daquele abraço junto com sofrimento dela ressentido há tanto tempo, me fez perceber que não precisava de muito para quebrar aquela barreira posta a nós.
Nem é preciso dizer que após aquele dia nunca mais fui a mesma. Clarice voltou a falar, poderia até dizer que reaprendeu, fez seções com fonoaudiólogo. Mas enquanto adaptava-se a falar, novamente e normalmente como antes, escrevia. Infelizmente não posso dizer que se recuperou totalmente da patologia, porém houve um grande avanço, pois já não apresentava mais quadros de alucinações ou delírios. Já era possível comunicar-se melhor. Certa vez ela me mostrou uma frase que dizia: “Permiti-me, um dia, me aprisionar na insanidade, para fugir da dor”.
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