domingo, 22 de dezembro de 2013

Erotografomania

Quando eu saio assim na chuva pra caminhar, até tento te sentir nos pingos que escorrem do meu rosto. Mas parece meio inútil toda essa caminhada e pensamento que quase nunca leva a nada, exceto à uma tristeza mórbida, porém não letal. Eu volto pra casa e fico vendo da janela o céu desabar e derreter em águas que fugirão pra algum lugar. E eu lembro da chuva que a gente nunca tomou junto. Lembro da briga que a gente nunca resolveu, do disco que a gente nunca ouviu e das ruas por onde nunca caminhamos. O vento, suficiente apenas para balançar o cabelo, é demasiado pouco pra quebrar a janela e me fazer fechar os olhos. Porque se eu fecho os olhos por conta própria, meu mundo vai direto pro teu e nem sequer pensa em voltar. Na realidade, eu só queria uma notícia tua, um sinal de vida, um aval de que o tempo ainda não me apagou aí de dentro. E eu também podia confessar um milhão de coisas nessas minhas cartas. Eu podia te mostrar em desenhos e gráficos a constância do teu nome em cada pedaço do meu âmago; eu podia explicar a relação entre os meus olhos e os teus, provando por A+B que nada me é tão elétrico quanto os sons da tua voz. Eu podia confessar que te ter ao telefone é como ver o tempo parar e que, na hora de dizer adeus, o choque da realidade seguinte é doloroso. Meu dedo e o botão de desligar se repelem como se tivessem pólos iguais, mas é tudo vontade do eterno, de continuar te ouvindo. A gente tem essa mania de eterno, de querer que tudo dure mais tempo do que na realidade é pra durar. Eu...
              Eu só queria saber se teu olhar ainda se fixa no céu, se tua lembrança de mim ainda mexe em alguns nervos. Na verdade, confessar é se expor ao extremo. Sabe aquela ave que constrói um ninho enorme na árvore de galhos secos e tronco longo? Confessar é aquele ninho com os ovos expostos lá em cima aos gaviões. Mas confesso que muitas confissões são apropriadas, embora eu quase nunca saiba discernir quais são. As cartas são só confissões e minhas confissões são mais baratas que batata no camelô de centro baiano. Confesso, no entanto, que de todas as cartas que já escrevi, ainda tenho uns quatro dicionários pra te contar.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Esquecimento

Dizem que com o passar do tempo feridas são saradas e dores curadas. Mas em mim ela está fazendo aflorar a maior das dores: o esquecimento. Estou esquecendo como era te abraçar e sentir o calor do teu corpo a me aquecer. Estou esquecendo como era te tocar e sentir tua pele macia. Estou esquecendo como era te ter bem perto e sentir o perfume que teus cabelos exalavam. Estou esquecendo como era te beijar; o prazer que os teus doces lábios me davam. O gosto que fazia meu corpo pedir por mais. Aos poucos estou te perdendo. Contudo, volto a dizer. Dizem que com o passar do tempo dores são curadas. Seria possível ele "curar" a minha?
(Livio Augusto)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Lugarzinho meu

Há um lugar aqui que inspira a reverência do teu nome e, apesar de você não o conhecer, é quase como te olhar e ver teus traços nas sombras refletidas no chão. Parece que a vida já não se contenta em tudo que me lembra você e ainda me mostra esse espaço de concreto e madeira como se fosse indicado pra conter um pouco a minha saudade.
É uma pracinha pequena num lugar isolado da cidade com seus cinco ou seis bancos, mas com um em especial virado pra onde nasce a lua. Um pedacinho de chão meio triangular com umas poucas árvores altas, um gramado bem descuidado e inúmeras folhas secas peregrinando na calçada. Falando assim pode não parecer, mas é lindo. Talvez não pra maioria das pessoas, talvez não comparado aos oásis da Líbia, porém, lindo, da sua maneira. E sua beleza é mais realçada ainda nas manhãs de domingo e principalmente ao anoitecer. Fica lá com os galhos secos pintando um cenário indescritível, tendo como cúmplice um avião passando ao longe e a lua parcialmente coberta por uma ou duas nuvens. Claro, tinha que envolver a lua. É ainda ligeiramente iluminada por duas luzinhas incandescentes e ostenta em uma das pontas uma placa de sinalização escrita ‘pare’. Um lugarzinho com aquele gosto de poesia que você sempre deixou.
De início eu nem entendia o porquê daquilo tudo me lembrar justo você. O porquê de coisas tão obsoletas vagarem no meu inconsciente e trazerem à tona a tua companhia. Mas aos poucos a razão foi clareando lucidamente e eu ainda caminho por lá quase que diariamente lembrando cada detalhe teu que faz falta. Bom, pelo menos eu sinto que cumpro um pouco com minha cota diária de você. E, até hoje é o que me deixa mais próximo de sentir o vento como um beijo teu.
Eu percebi que aquelas poucas árvores altas numa pracinha tão miúda me lembram você porque, apesar de ser tão pequena a ponto de caber nos meus braços, tuas virtudes ultrapassam a avenida e, ainda que você não se veja tão inestimável como eu vejo, você é maior do que o que eu sinto e ainda maior do que o recinto mais recôndito e exacerbado do planeta. Também percebi que aquelas folhas secas e amarelas voando pra todo lado, ainda algumas estáticas e ainda outras livres como balão me lembram a tua inconstância que eu sempre gostei. Me lembram o teu jeito às vezes imprevisível, às vezes quase certo e sem dúvida nenhuma a tua vontade de voar livre de toda a letargia do mundo.  Percebi que aquele gramado descuidado remetia a você pela tua necessidade de ser cuidada, de ter um carinho aconchegante pra se sentir protegida, de ter um ouvido companheiro pra se sentir aliviada e de ter alguém disposto que possa te servir como segurança nos momentos mais aflitivos e que, mesmo que talvez nem tivesse essa necessidade, eu quero tanto ser esse alguém pra te cuidar que lembro de você como sendo o meu vaso que é tão valioso, mas também frágil.  Percebi que aquele banco solitário virado pro nordeste me lembra você porque quando eu me sento nele nas noites de frio ouvindo o silêncio e olhando pro firmamento, não há nada que eu queira mais do que tua companhia segurando minha mão, sentada ali do meu lado e falando bobagens pra gente rir o tempo todo como antigamente, antes dessa distância maldita. E nesse lugar eu te sinto tão mais perto como um velejador que sente a brisa do mar sem poder mergulhar até as profundezas. Percebi, por fim, que até aquela placa escrita ‘pare’ me lembra você. Me lembra quando eu cheguei batendo na porta da tua vida e você até hesitou em abrir, mas eu pulei a janela e você nem percebeu. E de tão amoroso que é teu coração, nem se incomodou de me ter lá dentro e de invadir a tua casa e de invadir o teu espaço.

E eu só espero te ter em breve sem toda essa agonia de circunstâncias indevidas que me pungem afiadamente. Espero como transeunte que não vê a hora de chegar em casa em meio à tempestade e encontrar o seu porto seguro. Porque mais importante que estar em casa é se sentir em casa. E quanto àquele pedaço meu que eu deixei por aí, só cuida bem dele e, por favor, não devolve. Até hoje ninguém mostrou tanto zelo como o teu. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Cicatriz

Minha tristeza é muito cega
pra se libertar assim.
É difusa em garrafas cheias.
E mais ainda o estrago
que eu fiz derramando lágrimas
dos teus doces olhos acesos.
E me dói ter errado assim
contra teu seio prestativo.
Mas tanto lamentei ter destoado
e tanto que te vejo paciente
que mais ainda move meus pés.
Os pés que te seguem e que
às vezes, ainda desviam da reta.
Há, no entanto, também certezas na vida
que movem moinhos dentro da cabeça.
As certezas que me trazem os afetos
e que tranquilizam meus nervos.
A certeza de que aí dentro cicatriza
e até desaparece a mágoa que eu deixei.
Certeza da tua mão segurando a minha
em cada instante maldito e taciturno
que eu ainda estiver saindo da estrada.
De como me faz querer ser melhor
até nas noites mais sombrias
dessa cidade desordeira.
A certeza da paz que tive
vendo tua afabilidade
nos instantes, nas estantes
e até estandartes deviam ostentar
tanto que tu é e sabe ser.
E de tanto que aprendi,
vi que teu peito é como asa de borboleta.
Às vezes, a gente machuca sem querer.

sábado, 6 de julho de 2013

Plágio musical de Drummond

Dó amava Ré que amava Mi
que amava Fá que amava Sol que amava Lá
que não amava ninguém.
Dó foi para decadência, Ré subiu meio tom,
Mi morreu de acidente, Fá ficou para fermata,
Sol suicidou-se e Lá casou com Si Bemol Menor com a Sétima Aumentada
que não tinha entrado na história.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Rebentação

Num solo profundo de argila
eu enterrei meus pecados.
Na rara aurora que no outono
não se via o chão de folhas.
Enterrei à sete palmos o que fiquei de falar.
Enterrei também o que falei
e dispensei o lamento.
Mas como lamento essa minha mania.
Antes taquicardia que a louca euforia
de jogar com saliva as palavras da ponta.
E, meu Deus, como eu sei jogar!
Quisera eu a paz de não ter tanto a dizer.
Quisera eu omitir na descarada casualidade,
de comer o silêncio à garfo,
de saber pensar mais baixo
e não gritar aos quatro cantos
como joão-de-barro alegre.
E tenho, no entanto, um raio de esperança
de que um dia me abandone o soro da verdade
injetado em minhas veias sem minha permissão
e que minhas hemácias transportem menos gritos.
Que não estourem, os gritos, como bolhas de sabão
no meu pequeno corpo desfigurado.
Mas, se for pra arrebentar,
antes de dentro pra fora
que de fora pra dentro.
Ou, pelo menos, o drama fica sendo só meu.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Carpe diem

Lembra do dia de jangada,
aquele de vento na testa?
Se lembra da vez das estrelas,
aquela das mãos suadas?
É que eu tenho retido sempre
nos fragmentos matinais,
que eu tenho lembrado da vida,
que eu tenho visto os sinais
de que fiz tudo, menos morrer.
Porque a morte aqui é desvinculada de sentir.
E se eu sinto teu nome no ar,
é por viver de dentro pra fora.
Se eu sinto o poema beijar
e sinto a ânsia de um dia transcender,
pode apostar que a vida é mais do que amar.
A vida é mais do que sofrer.

sábado, 1 de junho de 2013

Bagunça de afetos

A cidade é minha, mas é muito pequena.
O país é meu, mas é muito distante.
E até a noite me pertence.
Mas é vazia.
É tudo oco, exagerado.
O café é frio, exacerbado.
E também tem o silêncio
que nunca é bom quando tu não tá.
Me viola como enchente notória
em dia cinza de domingo
levando cada pedaço de paz.
É tudo exagero, mas é sentido,
que quando se gosta, a hipérbole é lei.
O eufemismo é que passa longe
nessa bagunça afetiva de gente insana.
Mas eu queria te falar, meu bem,
te cuspir umas verdades minhas.
Que nada disso é tão bacana.
Que a tristeza só é bonita em poesia.
Que a vontade é maior do que o pacífico
e essa falta me rouba a delícia de te ter.
Dizer que tua ausência é o maior pecado
desde a inquisição na idade média.
Que a tua voz é a cadência
de uma análise transcendental.
E se pra mim é indizível a harmonia
de "for the love of God" por Steve,
teus intervalos sonantes embaciam
a delicadeza dessa sinfonia.
Mas se eu escrevo é pra não ter que dizer.
Talvez ser covarde e não ter que encarar
tuas retinas transparentes e profundas.
Talvez pela razão de já ter abusado do ridículo,
porque quando se gosta, o ridículo também é lei.
A não ser que ele persiga só a mim.
E eu vou ficando com a tua falta,
com o silêncio, com o ridículo
e te sequestro ridiculamente
em meus pensamentos mais absurdos.

domingo, 26 de maio de 2013

Vitória

Sábado, 25 de maio de 2013, dia de sol forte depois de uma chuva amena no início da manhã. Foi quando eu conheci Vitória; dando-me o prazer de olhar naqueles olhos enquanto ela falava. O encontro foi um total acaso e, eu até atribuiria essa casualidade ao destino, se eu acreditasse nesse conceito solitário sem sentido que limita a compreensão humana. De qualquer forma, Vitória é uma menina encantadora, tem metade da minha idade, é filha única, gosta de vestir roupas coloridas. Não, não que ela goste de muitas cores nas peças de roupa. Só que ela gosta de muitas cores no corpo, o que a impele a usar, por exemplo, uma blusa laranja cintilante, com uma calça rosa bebê e talvez umas meias bem estampadas. Ah, ela tem também uma doença crônica nas pernas que não lhe permite andar sozinha desde sempre, já tendo passado por duas cirurgias. Mas esse não é o fato mais importante sobre Vitória, uma vez que as deficiências geralmente são o fato mais importante sobre as pessoas que carregam esse fardo. Não, o fato mais importante sobre Vitória é o sorriso que ela ostenta no rosto como seu maior troféu. Sabe aquelas pessoas que tem algum tipo de deficiência psicológica e ri com tudo? Então, esse é o caso. Não, o caso não é que Vitória tenha alguma deficiência psicológica. O caso é que essa moça se mostra tão feliz que quase tudo é motivo de riso pra seus lábios finos. É como encontrar no mundo amargo uma paz quase que única dentro de um instante fugaz.
Há quem diga que o sorriso é contagiante e eu até concordo bastante, mas até hoje eu nunca vi nenhum como o dela. Não é só comigo, mas é instantâneo. Ela ri e você ri junto como se tivesse ligado no “automático”. Na verdade, é impossível não sorri só de lembrar do seu riso frouxo. E de falar em tanto ri e não ri, a única coisa que eu consegui fazer ao conhecê-la foi comparar. Comparar a existência das pessoas, os problemas das pessoas e, mais do que tudo, o valor que damos aos problemas. É claro que meus pequenos descontentamentos não são um grão de areia comparado ao seu infortúnio de querer andar e não conseguir. É que eu fiquei imaginando Vitória nos seus onze anos de existência, por exemplo, pedindo a mãe para levá-la ao banheiro de trinta em trinta minutos. Imaginei talvez, a sua dependência de alguém para guia-la em qualquer espécie de situação. Quando eu pensei se fosse comigo, de não poder talvez sair em um dia qualquer no meio da tarde pra caminhar por aí sem rumo, a sensação foi bem desagradável.

De qualquer forma, sem dúvida a coisa mais importante sobre Vitória é seu sorriso. Não é nada forçado. É uma felicidade que ela emana de todas as pequenas coisas que se passam em sua mente. De todos os detalhes compreendidos no seu mundo que, pelo visto, engloba um exército de afetos. Ao que parece, ela se realiza nas coisas que pode fazer, em vez de se torturar pensando no que não pode. E se no meu sincero otimismo eu aprendi algo muito importante dessa menina, mais do que isso, lamentei os inúmeros sujeitos que reclamam de viver por causa de dramas e das fugas do tédio sem significado. Lamentei os desafinados nas notas mais simplórias de alegria. Lamentei a lamentação dos miseráveis que mais lamentam sem motivo por falta do que fazer. Mas foi só por instante, porque quando Vitória abria o sorriso, eu só pensava em sorrir também e não tive tempo pra lamentações. 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Já não devera dizer

As palavras, objetos tão aquém
Um turvo entalo sufocante,
Corresponde aquelas imagens
Um afago, um gesto imundo
Das carícias insanas

As considero assim
Depois daquelas que
Desfizeram o desfeito...
Pedaço errado, incompleto e inconstante
Instante marcado dos ares irrespiráveis...

Torna o eterno a animosidade
Advinda de outrora
Olhos fechados, recusara hostilidade,
Precediam graduante consternação
Imposta aos segundos, séculos torturantes

Tortura e atenuante
Até as faltar-te, por conseguinte
Honestas e encobertas, debaixo
Da máscara soberba, longe da ousadia
De rasgar a vontade do não incidir...

Postas aquelas maquiadas
Únicas, solenes malditas e tristes
Preservando oculto o grito
Prolonga e tenta não acolher
O acaso esperado, abriga e destrói

Vagar até absorver o incontido
Especulações que não denunciam porquês
Impostas ao aceitável inaceitável
O limite sessa, visto uma torrente e
Cai a máscara, fora aos braços a procura de alívio.
(Poema de Ana Lísia)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Arcabouço de um abraço


O abraço é a aspirina da solidão
com seus tentáculos mirabolantes
oscilando entre o ataque e a defesa.
Parece um anjo de asas longas
que mede o teu cansaço
e alivia cada pedaço de impureza
que se dissolve no corpo.

O abraço cheio é divino.

Que das gordinhas eu prefiro,
nunca saiu no jornal
mas até o açogueiro sabe.
Quando os braços cercam a carne
mas sobra espaço pra apertar.
E sobra querendo conter
como poeta louco que só sossega
quando descarrega tudo no papel.

O abraço assim de tanta pele
dá gosto de infinito com travesseiro.
A vontade é de apalpar tudo
mesmo sem conseguir dar conta.
É uma viagem longa só de ida
pra ilha de Tristan da Cunha.
O peito descansa como um gato
com a preguiça em cima do dono.

O abraço magro é delicado.

É um vaso que se segura com cuidado
e, mesmo que agarre, falta espaço.
Falta porque os braços se encontram
como se tomasse um caminho diferente
e fosse acabar no mesmo lugar.
É acalentar no peito o rosto doce
com o cuidado de bebê faminto.

O abraço assim de pouca pele
dá gosto de fragilidade com consumo.
A vontade é de puxar rente ao corpo
como se fosse entrar um no outro,
como se tudo fosse fugaz,
como se tudo fosse abstrato e,
no final, o que fica é mais vontade
como missão não cumprida.
É viagem de ida e volta.

Sim, o abraço cheio é divino,
mas é que eu encontrei
em braços magros e em pele pouca
O lugar mais confortável do planeta.
E se o mundo descobre o poder que ela tem
com esse acariciar de neve,
será mais requisitada
que a paz em meio à guerra.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Tanto a declarar


Quem me dera que os anúncios de liquidação
fossem astros luminosos à vista
e à prazo fosse o tempo que me resta pra dizer
tudo que se entope na garganta.
Tudo que é preciso e, precisamente, não digo
esperando o segundo ato com medo do epílogo.
Já vi que há certas orações que, se não ditas,
o miocárdio sangra até morrer.
Conclusivamente, me declaro
sem tanto a declarar.
É que tem gente que me desassossega
com a fala tanta e leve,
com o gosto bom do mundo.
O gosto que Drummond sentiu.
O gosto que matou Romeu.
Que tanto roga em mim
o doce que o amargo faz
quando eu olho fundo.
Essa gente que deixa um som desafinado,
que inventa as cores de um abril chuvoso
e tudo ouve e tudo vê.
E eu vou contra a poesia
sem hipérbole nem clichê.
Nem vou me anunciar perdido
como se não vivesse sem ela.
Mas o sol ainda nasce naquela brecha
e ainda cabe entre nós dois.
Ainda tem aquele beija-flor no quintal
que tanto enfeitava a tarde.
Ainda tem o vento soprando forte
e eu ainda subo pra ver da janela.
Mesmo assim, eu não disse nada.
É que já são 3 da madrugada
e eu ainda fico pensando nela.

domingo, 28 de abril de 2013

O roubo é culpa do acaso


Uma vez me perguntaram se eu já tinha roubado alguém. De alguma maneira, pensei logo que houvesse mais de um sentido envolvido na resposta e pedi mais especificidade. Ela queria saber não se eu já tinha roubado algo de alguém, mas se eu já tinha roubado alguém de si mesmo. É quando você sente roçar na pele um furacão que se demora a entender. Quando perde o senso da normalidade e se joga tão profundamente no abismo que mal vê o chão chegando mais perto e, quando vê, já caiu. Quando já levaram aquilo que tu era e trouxeram cacos coloridos de paz e tormento, desassossegando a alma como vira-lata barulhento que tira o sono na madrugada. Eu respondi que não, nunca, na modéstia que eu quase nunca apresento e quase nunca me visita. Porque é preciso ter muita garra pra roubar, ter muita coragem, ousadia e pairar no ar como uma música que toca mesmo quando não quer. Eu nunca fui de roubar ou talvez tenha feito isso uma vez ou duas. Na realidade, é mais qualificado como furto do que roubo, uma vez que suavemente a pessoa chega, devagar, entra sem avisar e leva a teu drama de estar só. Já o roubo é violento e ameaçador, desprovido de sutilezas e cordialidades. Amordaça a vítima sem delongas que mal quer, mas quer e, de repente, acaba numa venda irrefletida sem o valor merecido.
                Ao passo, porém, que respondi se eu já tinha roubado, fiquei pensando se já haviam me roubado. De início pensei que sim, talvez uma ou duas vezes também. Teve aquela que sempre deitava comigo pra ver as estrelas e eu a enchia dos clichês que eu guardo como colecionador, ou como babaca, dependendo do ponto de vista. Uma vez numa noite de lua cheia, quando ela percebeu que eu fitava mais aquele círculo dourado do que ela mesma, me perguntou se eu gostava mesmo de olhar pra lua. Eu disse: “é como se as estrelas fossem todas as mulheres do mundo e a lua fosse você”. Na sua infinita inocência, disse que tinha sido a coisa mais bonita já dita pra ela. Eu bem que venerava o cheiro da noite no seu colo com o escuro como aliado. Mas pouco a pouco ela foi perdendo o brilho de luar e refluindo na sua imensidão. Hoje é só mais um astro luminoso como todos os outros. É até bonito de se ver, com uma exclusividade, porém, questionável.
                A parte louca é que nunca se sabe se é bom ou ruim ser roubado, sendo o coração traiçoeiro fundado num corpo sentimental carregando os tons do mundo nas costas. Mas sempre tem aquele anjo torto que te faz tirar os pés do chão e olhar bem pra o que não se viu ainda. Ainda mais quando não se espera a falta que faz as palavras faladas de certos lábios finos, a falta que faz o abrir doce de certo sorriso e certas teorias – as mais infundadas e mais divertidas possíveis. É só obra do acaso se comportando indiscretamente. Dia desses, a minha vizinha de quatro anos, que por sinal passa muito tempo na minha casa, me encarou por um bom tempo e perguntou se eu estava apaixonado. Extremamente surpreso pela indagação súbita, mas ao mesmo tempo achando escandalosamente fofa aquela pergunta de uma menininha que eu vi nascer, eu questionei na hora o motivo de ela me perguntar sobre isso. Ela disse, como se já tivesse uma resposta ensaiada: “é que você fica rindo o tempo todo pelos cantos que nem bobo”. É estranho como as crianças hoje se conectam à realidade com muito mais acessibilidade. E mais estranho foi ter a certeza da qual eu apresentava muitas desconfianças; de que eu havia sido roubado.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Quarto liquidificado


Era um mar de delicadezas
dentro de um quarto na chuva.
Era um desgosto bonito
num centro com a rosa murcha.
Era cinzento o jeito que caía,
o jeito que escorria os pingos,
o jeito que eu olhava da janela.
Era uma alma deserta
que diluia o remorso das palavras.
Era contada a paciência do relógio.
Era um distúrbio esdrúxulo na minha retina.
Era um poço raso onde eu guardava
tuas frases. Algumas pra relembrar, talvez,
nessas horas de idoso tetraplégico.
Tinha um xadrez que movia
do canto pro meio.
Tinha uns livros na mesa
e todos com um cheiro teu
de amêndoa doce.
Tinha um piano que me acompanhava
mas só tocava deitado no vento.
Tinha lá na parede escura
um desenho do meu disco favorito.
Tinha um escrevinhador de garagem.
Tinha a dança de um par de grilos.
Tinha um verso torno num caderno aberto
com a tua caligrafia antiga.
Tinha um silêncio alheio
disputando espaço.
Tinha tua careta na moldura.
Tinha um origami que tu guardou
na estante, mas era meio vazio
como se faltasse uma dobra.
Tinha um vinho barato e uma bala de menta,
e tinha tanta presença
que tudo era ausência
da tua mão fria na minha
e eu mal podia esperar pelo amanhã.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Saudade pós moderna


Nessa incontestável era pós-moderna
de insetos rodeadores de luz,
quem sou eu quando paro
quando sarro o meu violão?
Quando a tropa maior que a de Roma
invade e saqueia mente pobre
em amargura doce e leve.
E bem que eu podia ter
uma máquina de escrever
pra expulsar assim de noite
esses poetas de computador.
Ou pelo menos expulsar uma menina
que metodicamente passa por aqui
sempre essa hora, sempre exclusiva.
E bem que eu podia assim de madrugada
rasgar o silêncio com as teclas de ferro,
fazer um chá pra tua inteira pessoa
e tomar sozinho, que nada é pra agora
e nada é tão racional como solidão.
E saudade é tanta,
é morna, é velha
é rouca, é bronca.
Tem jornada longa em sinapses tantas
que mistura cachaça com ácido clorídrico
E só tem uma ideia jogada no ar.
Talvez nem o pai da psicanálise
nem doutor, nem filósofo,
nem o mestre da mente
cure a moléstia de estar só assim
como louco desvairado
em estado alavancado
de uma rosa sem jardim.
Nem se mistura palavras
em potes de leite em pó,
nem se mistura paixão
em noites de lua só.
É decreto, portanto,
que em meio à tanta saudade
jogue tudo em datilografia.
Pois antes tarde do que nunca.
Antes arte do que eu.

sábado, 6 de abril de 2013

Marco territorial


Minha pose de discórdia
já marca o território
na barriga fina,
no umbigo fundo.
Sente asco à concorrência,
sente medo da perda.
Sinto muito, mas sinto tanto
que tua ausência
é um tanto quanto melindrosa,
pra não dizer que a falta em mim
é bem mais do que tu.
Minha pose de discórdia
já marca território
no teu quadril e na boca torta.
Se faz mal querer,
mal maior é o exclusivo.
O mundo não sou eu, meu bem.
Eu quero exclusividade
mas quero sem razão
e onde falta razão
certamente falta amor.
Falta mais ainda no teu colo
minha cabeça desatinada,
meu drama rente à novela,
meu esquema doido
de diluir o bom senso.
Acho que já chega
de tanta fala grossa,
tanto dito logo,
tanto mesmo quando,
tanto eu, portanto,
e tanto tu, sem tanto.
Antes fosse eu
antes fosse tu
mas se gente fosse propriedade
tinha que pagar IPTU.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Branco


Todo branco um dia cansa
de insistir em ter-se nada.
Toda onda será mansa
no entortar da madrugada
onde o branco será pouco
sem tintura no papel
e o santo do pau oco
reza para alguém no céu.

Pede pra encontrar um verso
que ali deve se achar.
Seja plácido ou perverso,
seja pétalas de mar.
Só se sabe que afinal
todo branco esconde arte
na entrelinha ou marginal
do sujeito em qualquer parte.

Afinal, se tem final
rima dia amargo fosse,
ora insólito, normal,
branco verso fica doce.

[E num dia qualquer fez-se tudo
onde a raspa de madeira anuncia
que a ausência é só uma presença
escondida em novas velhas miragens.
Mas se do branco tanto enfim tende a crescer,
o que será de mim quando eu vier a escrever?]

sábado, 23 de março de 2013

Marginal


Das mensagens dos muros do país
saltam pernas de letras tênues.
Saltam do cimento, da tinta clara.
Toda alforria merece saltos assim.

São obras de um marginal honrado
que pede centavos com os amigos.
Sem barraco ou condomínio
usa a arte sem domínio
na saliva da cidade.

Sabia ele que a poesia marginal
mescla a divina rotina
de dormir no frio da esquina de bar
com o merecido sonho de ter tempo pra pensar.
Era o poeta de papelão
já destacado entre os jornais
que esquetam a noite.

Pra sua alegria ou infotúnio
conheceu uma pedinte até doce.
Doce que o entrou na língua
como mulher derretida.
Dali pra frente morria de amores
com dores nas juntas
que só ela curava.

De súbito, não mais escrevia nos muros.
Nunca mais pensou em versos.
Ele a ouviu dizer que aquilo era bobagem.
Foi extirpado da essência melindrosa.
Marginal na marginal sem poesia marginal.

Uma vez passou num bairro rico
e nunca mais foi o mesmo
depois que viu num muro pichado:
"Se controlaram a tua vida,
quem é você quando vai dormir?"

quarta-feira, 13 de março de 2013

Lixeiro


Houve uma manhã de terça que eu prestei bem atenção no coletor de lixo lá de casa. Sujeito simples, de pele morena, ostentando um bigode mal feito, displicente com a máscara que devia estar acostumado em meio à tanta sujeira. E o suor brilhava na testa como alumínio na luz do sol. Sem dúvida, é um emprego que ninguém quer ter. Mas, por que o gari só ganha um salário mínimo? Foi a pergunta que permeou minha mente durante um tempo. Eu quero dizer que tem trabalhos muito menos trabalhosos em que se ganha muito mais. É claro que quando se fala em emprego pra quase nada trabalhar e faturar um bom dinheiro, se pensa logo em política. E foi isso mesmo que eu pensei. Talvez alguém diga que lixeiro foi a última oportunidade que lhe restou por não ter estudado muito. Mas o que eu faria se não tivesse ninguém pra recolher meu lixo? O que o político faria se não houvesse ninguém pra jogar fora o lixo dele? Será que ele pagaria alguém e pagaria bem pra fazer um trabalho “sujo”?
Mais do que isso, eu pensei se o lixeiro talvez tivesse um filho pequeno em idade escolar. Pensei no que ele diria no dia do trabalho onde todos os garotinhos falavam entusiasticamente na escola dos trabalhos de seus pais. E, pra esse garoto, não seria diferente. Ele ia dizer com todo orgulho que o pai é gari. Talvez os colegas de escola até zoassem, mas quando se tem um herói, você simplesmente não deixa que falem mal por muito tempo.
Com Mateus era exatamente isso que acontecia. Talvez ele até não soubesse que o trabalho do seu pai valia mais que o de muitos certos políticos juntos. Mas isso seria só mais um detalhe pra ele idolatrar mais ainda a figura paterna. Mateus só tinha sete anos e amava quando seu pai ensinava sobre como era possível reciclar certas coisas que ele nunca pensou em fazer. Ele gostava de futebol, de lasanha e de quando seu pai trazia brinquedos pra ele. Mateus também nunca soube que seu pai encontrava brinquedos bem conservados no lixo de alguns bairros de classe média e, depois de uma boa lavada, dava de presente pra o filhão. Não sei se pela felicidade de ganhar coisa nova, mas ele também nunca sentiu falta de embalagens nos brinquedos. Simplesmente ansiava quando seu pai entrava pela porta escondendo alguma coisa nas costas.
            O que contribui muito pra felicidade de Mateus é que ele só tem sete anos e não se importa com o que venham a falar de seu pai. Quando ele vê que tem comida, brinquedos e àquela hora da noite pra aprender reciclagem, tá tudo certo. Num certo dia do trabalho, a professora perguntou se Mateus era feliz com o trabalho do pai. Ele respondeu: “Não. Eu queria que ele voltasse mais cedo pra casa por que às vezes eu começo a reciclar plástico sozinho e erro o corte. Ele é a única pessoa no mundo que saber consertar.”

terça-feira, 5 de março de 2013

Ser


Antes de me tornar suicida
quero ser cura de depressão.
Ainda quero ser silêncio,
desordem, sepulcro místico.

Antes de qualquer cigarro
quero ser fumaça em formação.
Porque não saudade de um tempo
morto, de lembrança torta?

Antes de me tornar bandido
quero ser mordido pelo infortúnio.
Quero ser acorde belo de violão.
Talvez um dó com nona.

Antes de fazer sentido,
quero poder não ter certeza
que quando se tem certeza
é bem melhor de se viver.

Antes de me tornar prolixo
quero mandar poemas pro lixo.
Quero sentar na varanda
e ser, talvez, pombo preto.

Antes de ser eleito
como o maior metódico da vez,
quero morrer de anseios,
ceias fartas e fartos seios.

E se é pra morrer
Que eu morra de amargura.
Que seja lentamente quente
com pincel multicolor
numa pintura de Debret.
Pois, sou a soma do que não veio.
O silêncio que não se fez.
O mistério que desvendaram.
E se já me encontraram
qual o objetivo de buscar?

Antes de me tornar suicida
quero ser suicida.
E assim, talvez,
a contradição seja a vida
que eu sempre procurei.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Malandragem egoísta


Tudo que vem é bem melhor do que se tem.
Eu tenho luz elétrica o tempo todo.
Mas quando falta luz e ela volta,
o bairro inteiro vibra comigo.
É a fuga do infortúnio.
Se fulana volta comigo depois de uma semana,
é melhor do que passar dois meses juntos.
A volta é melhor. É nova, é divina,
é centrada, é irreal, é mirabolante.
Mas fulana muito me agrada.
Por isso prezo essa afeição marginal
de literatura pichada no muro.
Meu querer é tanto que me afaga
essa linha tênue de reconciliação.
Se a alforria grita lá da frente,
pra quê tanto aperreio em lentidão?
Se eu só falo uma língua e ela é tua,
pra que tu atua de emotiva ao coração?
Nossa arte, meu bem, é rir um do outro
na metade do almoço e depois da discussão.
Talvez nem o ramo mais sofisticado da Hermenêutica
entenda esse misto de prazer e negação.
Dessa malandragem egoísta.
Por que pode não ser amor,
mas eu sei que essa doideira de amor
é como estrada esburacada.
A passagem é complicada,
mas tu tem que passar.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Talvez olhares sejam precisos


               Quem vai negar o prazer que sente em olhares sinceros? A minha curiosidade agora é vício. Vício de olhar para as pessoas na rua, de perscrutar bem no fundo e adivinhar a alma com delicadeza. O que também sempre vem acompanhado da censura dos amigos e da reclamação: “Pára de encarar os transeuntes. Um dia você ainda vai encontrar um cara mal humorado daqueles que te arrebentam só de olhar pra eles.”

               Na verdade, a minha rotina não é encarar ninguém. Não é lançar olhares de cobrança, casualidade ou inconveniência. Se bem que também não nego o prazer que é causar um pouco de impacto, daqueles amenos, mas confusos. Bem confusos. Foi o que me levou ao vício insólito de mirar bem nos olhos dos transeuntes. Costume esse que considero um elogio. Um olhar só por olhar, sem pretensão, sem fingimento. E o paroxismo desse vício é ler naqueles olhos desconhecidos a confusão. É quando eles começam a se perguntar se talvez me conheçam, por que eu seguro meus olhos neles, se seus cabelos talvez estejam embaraçados, ou mesmo só me chamam de indelicado. Isso tudo se percebe nos olhos. Não precisa ser um bom observador pra notar.

               Sim, é esse o meu contentamento. Mas ainda considero um elogio. É que ninguém sabe mais o que são olhares profundos nessa realidade trivial. É justamente pelos costumes que me contento e me limito nestas retinas. O que se vê hoje são olhares orgulhosos e humilhados. Basta observar durante quinze minutos uma praça movimentada. Já é sabido que os orgulhosos não baixam a cabeça. Quem dirá o olhar! Os orgulhosos andam com olhos que dizem: “Estou passando e não me olhem. Longe está de vocês, ordinários, merecerem me fitar.”

               Os humilhados são outro tipo que eu não invejo. Com suas capacidades escondidas e seus egos traídos, fingem que não existem. São como catatônicos afundados na lama. Os humilhados andam com olhos que dizem: “Estou passando, mas não olhem pra mim. Presta atenção naquele pombo. É melhor que se concentrar na minha existência inútil.” Os humilhados gostam de não olhares, não por discrição, mas, por vergonha. E não é um simples pudor natural, mas uma vergonha horrenda de sua própria pessoa, de quem ele é, e até do que possivelmente venha a se tornar.

               Esse é o meu motivo. Não à guisa de desculpa, mas é o motivo do meu vício de mirar com gosto em olhos desconhecidos. Já cansado de olhares orgulhosos e humilhados, me sinto na obrigação de bater de frente com a displicência da linguagem corporal. É só uma daquelas atitudes que eu espero que mude no mundo, a começar por mim mesmo. O simples fato de ter mais olho no olho.

               Dia desses, eu acabara de chegar à minha velha praça para esperar o ônibus (Onde na verdade não existe um local específico para a parada do ônibus. O que se sabe é que ele aparecerá na praça.). Cheguei andando devagar concentrado em alguma coisa que não tenho nem idéia do que tenha sido. Por fim, parei bem de frente pra calçada onde geralmente ficavam as pessoas à espera. É, parei de frente, mas não fui até lá. Eu não sou esse tipo de sociável que senta perto das pessoas. Eu gosto de sentar distante pra observar sem ser notado, como um carnívoro em volta da presa. Pode parecer uma comparação grosseira, mas que se dane, é bem por aí. O fato é que eu ainda estava parado. Não tinha ido sentar perto de quem esperava e também não tinha sentado em lugar algum. Só tinha parada vendo de relance algumas pessoas ao redor.

               De chofre, me virei um pouco e, ainda perto de mim, estava uma moça um tanto quanto ensimesmada, eu diria. Ainda me pegava na distração, mas, ao que parece, inconscientemente cedi ao vício de olhar bem pra ela. Até então, ela quedava também de pé como se esperasse alguém que acabara de sair e fosse voltar logo. Não sei. Também não parecia ser alguém tão diferente em nenhum aspecto, exceto pelo olhar. Não sei se era a beleza dos olhos ou o modo como ela devolvia exatamente pra mim, coisa nada corriqueira nesse meu costume trivial.

               Continuei lá parado algum tempo sem perceber, ainda segurando os olhos em cima dos dela como se não existisse mais nada. Não faço ideia de quanto tempo durou aquele impetuoso desatino, mas creio ter sido bastante. Além dos olhos pedrados, ainda movia um sorriso meia boca e um espanto diferente. Um espanto, não de assustada, mas de curiosa. De súbito, escapou algumas palavras da sua boca:

— Sua mãe não te ensinou que é feio encarar desconhecidos?

Ela falou sem grosseria como se estivesse continuando uma brincadeira começada por mim. E ainda ostentava o sorriso meia boca. Foi como se as palavras tivessem me despertado de um transe. E eu, na verdade, tive que pensar um pouco pra conseguir distinguir e entender as sílabas, mesmo depois de ditas.

—Me ensinou coisa melhor, disse eu. Olhe bem nos olhos pra saber em quem confiar, é o que ela sempre dizia. Pode parecer clichê, mas talvez seja um axioma.

—Humm... e será que em mim se pode confiar?

—Talvez!

—Talvez não é resposta.

—O que importa são as perguntas. (Eu admito que falei num tom de petulância sim, mas, depois de alguns segundos, ela continuou...)

—Ahhh...quer dizer então que você é um seguidor de Voltaire metido a sabichão que encara desconhecidos?

—Quer dizer então que você é uma anarquista sedenta de respostas que fala com desconhecidos?

Depois de mais um sorriso confuso, ela pergunta com uma curiosidade única:

—Como você sabe que eu sou anarquista?

—Quem mais usaria uma blusa escrita “morte ao governo”?

Ela gargalhou como se fosse a última vez que achou algo engraçado, porém, por pouco tempo. Segurou ainda o ar de mistério oferecendo o preço da dúvida e acrescentou:

—É...talvez eu seja.

—Percebe?(Eu continuei) “Talvez” é resposta pra tudo. No dia que o homem descobrir a beleza que a dúvida tem, a gente vai ter mais liberdade do que a ave que domina os mais altos céus.

             Depois dessas últimas palavras, eu só permaneci também no riso fraco e saí sem despedidas. Minha carona ia chegando, mas antes de dar uns três passos pra frente, eu ouvi novamente aquela voz chamando como se o desconhecido que ela acabara de trocar palavras tivesse esquecido alguma coisa. Eu me virei um tanto quanto displicente e, ela, dessa vez sem aquele ar de superioridade e de mistério, porém com uma expressão quase suplicante e intrigante, tentou logo parecer novamente não tão interessada em conversa e disse:

—Você ainda não me disse seu nome.

—Justamente. Agora por meio da dúvida, eu vou habitar não só os seus pensamentos, como suas questões. Você não só vai se lembrar desse louco, como vai torturar sua mente pra descobrir quem ele é, por que conversou contigo e onde arranjou tanta arrogância pra bancar o pedante diante de uma anarquista. É isso. Não vou dizer meu nome, mas quem sabe um dia, talvez, você saiba até o número do meu sapato.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Só gente babaca escreve


Meu irmão escreve pra espantar fantasmas.
Minha amiga escreve por que vive de amores.
Meu primo nunca pega no lápis, fala tudo no computador.
Minha vizinha mal aprendeu a ler, se lambuza no diário.
E todo mundo bate na cara das palavras com a pontuação.
Sangra e transborda aquele amontoado de dedicação
à mentira que o coração inventa
ou à história que a canção lamenta.

É só gente babaca que escreve.
Que não suporta as vozes petulantes,
que migram da cabeça pra o papel,
que vão além do relevo da alma,
que transpassa o perigo de viver.

Como se não bastasse a babaquice,
vem a dor de dente mendigando atenção.
Como se tudo isso não fosse só um pedido de atenção!

Aí escrevem pra espantar fantasmas.
Escrevem por que vivem de amores.
Fazem prognósticos por via das dúvidas
e toda essa amálgama é alforria.

Aí eu escrevo, você não gosta e ninguém liga.
Por que talvez essas ideias loucas
que pungem as artérias, matem o bandidos
que apontam a arma pra têmpora suada.
Talvez o verso seja tão lacônico
que transforme a poesia em arames farpados.
Mas é também tão gostosa como um café de tarde
e silêncio de manhã.

A conclusão, tudo sendo consumado,
é que eu escrevo, você não gosta, ninguém liga,
todos são babacas e, principalmente eu,
que não suporto retardados dialogando aqui dentro.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

À meia luz


Pode confessar que você ama
esse efeito de vinho no sangue,
essa baba escorrendo na boca,
o mamilo duro feito pedra,
esse cabelo embaraçado,
a água salgada que escorre dos poros.

Confessa que ama essa hora do dia,
o escuro chamando pra zona de decisão,
a pia repleta de louça suja,
a parede amarelada na meia luz,
o hábito de esquecer a porta aberta,
o livro do lado pra espiar.

Confessa que morre por essa rotina,
que grita pela minha mão,
que briga pelo chocolate,
que chora por uma mordida,
que jura pureza visceral
e treme de medo de borboleta.

Confessa que gosta da casa,
de qualquer lugar entre as paredes,
de ser perscrutada na mesa, na pia,
no chão, no sofá, na biblioteca,
da euforia no fim da noite
e do queijo que engana a fome.

Confessa que me aprendeu sem dar razão,
que insiste em suscitar meu delírio hipnótico,
que me aterra de manhã e me esfaqueia de noite,
que morre, mata, sangra e despenca
por uma gota de orvalho que brota
debaixo do umbigo.
Por carne, unha, dentes e pelos
compenetradamente movidos por
insetos pegajosos de movimentos
repetidos na insanidade do escuro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Comunicação não verbal

(Crônica de Graziela Leite)

         Desde que chegou aqui ela não mudou muito, embora tenha observado certa evolução. Como sempre, ela apenas vivia olhando para o vago horizonte. Ninguém sabe ao certo o que se passava em sua mente. Um olhar distante, imenso, como se ela estivesse aprisionada aos seus pensamentos. Repetia sempre o mesmo movimento o dia todo. Seu olhar distante sentada no canto do quarto, movimentando-se para frente e para trás. Clarice (era o nome dela), não se comunicava com ninguém, não se aproximava, ao menos permitia a aproximação de outros.
          Sempre tivemos nossas dúvidas com relação a ela, era do tipo de paciente que nunca sabíamos a hora exata de nos aproximarmos. Nunca falava, se quer respondia a nossas perguntas. Sua vida era um verdadeiro mistério, ela era um verdadeiro mistério. Não se sabia absolutamente nada sobre ela. Salvo que havia um número de telefone na sua roupa, obviamente tentamos contato com este número. Era de uma mulher que na verdade dizia ser uma cliente de Clarice. Descobrimos que Clarice era uma advogada muito conceituada. No entanto em relação a sua família ela já não sabia informar.
          Clarice chegou aqui suja, uma pobre alma atormentada. A única coisa que dizia era seu nome repetidas e repetidas vezes. A acolhemos e fizemos sua análise, ela então foi diagnosticada com Esquizofrenia. Todas as vezes que cheguei perto de Clarice percebia que ela escondia uma profunda tristeza e, é claro, rejeição. Levou tempo para que ela permitisse que alguém chegasse perto. Ela chegou muito machucada. Seu corpo apresentava indícios de ter sido violentada, talvez isso explicasse sua rejeição mediante a aproximação de todos. Foi um processo longo e difícil. Todas as vezes que tentei aproximação ela sempre se afastava como se fugisse de mim. Sempre tentei fazer com que ela respondesse às minhas perguntas, mas nunca dizia nada, nenhum gesto afirmativo ou negativo.
                 Sabíamos que saber sobre sua vida seria essencial para seu tratamento, mas não tínhamos como. Dias se passaram e começamos a perceber que uma mulher observava Clarice (as vezes que ela se permitia sair). Então, em um determinado dia lhes perguntei por que a observava tanto. Logo respondeu que a havia conhecido e contou-me a história de Clarice. Disse que ela de fato era advogada, era casada e seu sonho era ter um filho, porém, sem saber as razões, seu marido não queria. Ainda assim ela engravidou e logo abortou o filho que tanto queria, espontaneamente, após uma briga com marido, logo quando anunciou sua gravidez. Então se divorciou. Com relação aos outros parentes, Clarice não se comunicava com eles, não tinha um bom relacionamento. Acabou se trancando em um apartamento e, não se permitindo mais trabalhar, acabou com todas suas economias. Despejada, sem ter onde morar vagou pelas ruas. Terminou dizendo que soube de Clarice depois que ela estava aqui no hospital, por acaso a viu quando passou por aqui. Agradeci por tudo que contou e, em seguida, foi embora.
           Logo em seguida, fui até Clarice. Tentei perguntar sobre sua vida novamente. Dessa vez apresentava-se ainda mais inquieta. Não queria ouvir. Foi quando então falei do seu filho. Ela olhou profundamente para mim. Percebi que Clarice se lembrava de sua vida. Mas sua dor não deixava que ela falasse sobre esta. Depois que falei, seu olhar e sua expressão de sofrimento pairavam sobre mim. Senti que toquei na sua profunda ferida. Então a abracei. Pela primeira vez, ela permitiu uma aproximação de fato concreta e afetiva. Não podia dizer mais nada, pois aquele momento já falava por si só. Aquele olhar de Clarice entregou toda sua história, toda sua vida, que tantas outras vezes não pude perceber. O toque daquele abraço junto com sofrimento dela ressentido há tanto tempo, me fez perceber que não precisava de muito para quebrar aquela barreira posta a nós.
                  Nem é preciso dizer que após aquele dia nunca mais fui a mesma. Clarice voltou a falar, poderia até dizer que reaprendeu, fez seções com fonoaudiólogo. Mas enquanto adaptava-se a falar, novamente e normalmente como antes, escrevia. Infelizmente não posso dizer que se recuperou totalmente da patologia, porém houve um grande avanço, pois já não apresentava mais quadros de alucinações ou delírios. Já era possível comunicar-se melhor. Certa vez ela me mostrou uma frase que dizia: “Permiti-me, um dia, me aprisionar na insanidade, para fugir da dor”.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Vida em 6 passos


Primeiro passo: Tempo é asteroide apressado.
É água de rio em correnteza.
Aquele plástico velho que foi pra o lixo
e nunca mais voltou.
Não subestime o tempo.

Primeiro passo: Não conclua que eu te amo
por que eu te fiz tirar a roupa
e sussurrei balela no pé do ouvido.
Palavras são abismos sórdidos
de incertezas e variedades.
Não subestime as palavras.

Primeiro passo: Gente é puro recalque.
Humano é louco por natureza.
São freiras loucas, comerciantes loucos,
soldados loucos e juram sanidades uns aos outros.
Não subestime as pessoas.

Primeiro passo: Tem arte que embeleza o inferno.
Tem som que dá beijo na alma e morde a filosofia
numa amálgama de prazer em demasia.
Ela faz o que ninguém consegue.
Não subestime a música.

Primeiro passo: A fermata é um paradoxo.
Uma quietude perfeita de se ouvir.
Respeite também por que falar nem sempre
é a salvação do anjo aterrador.
Não subestime o silêncio.

Primeiro passo: Você estranha a ausência
da sequência dos passos. Por que a vida
não dá passos a ninguém. É só consequência.
É a ideia trivial do delinquente juvenil.
Mas respeite também a vida
e respeite todos os passos.
Por que passo a passo
a gente perde a melhor parte.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Ana


Ana gostava de preto.
Com um lenço enxugava o pranto.
Já pronta pra o prato quente
Disse pra o meu primeiro espanto:
"A praia promete vida.
Vida paira em qualquer canto."
"Pronto", disse eu, "pensativa
em pormenores pra não dizer, portanto,
que o prazer em prosear
parecia nela um tanto
quanto prático que prezar
pela espera de algum manto."

Ana parava pra pedir
proteção num velho abrigo.
Prolongava a própria arte                    
pra não parecer castigo,
provando em paráfrases provisórias
pensamentos privativos.
Me disse Ana pressentindo
polegadas de perigo:
"O pensamento periódico
por hora é meu melhor amigo.
Portanto, prove a primavera
prover a paz de Deus comigo."

Parei pra falar: "Ana,
Deus não priva teu problema.
Pare a poesia pra pegar
pesado e se livrar do dilema.
Pense positivo e pule.
Passe por cima do teorema.
Pois pra prever a perversidade,
é preciso parecer paciente, morena."
Ana disse: "Pra mim não dá. Prefiro perecer
nas palavras precoces do meu lema."
Um dia por parques petrificados, Ana,
penetrante, padeceu da ponte e só deixou um poema.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Léxico homicida


Jurou amor eterno
e prometeu lavar a louça.
Disse ainda que melhoraria na escola.
Aliás, não disse! Dessa vez foi uma promessa.
Já acostumada com o descaso das palavras,
vive a prometer e jurar.
Para o diabo com tanta alusão à verdade.
Por acaso são palavras só conjuntos
de letras sem sentido?
Maldito seja quem inventou
essa coisa de jurar e prometer.
Que agora não me basta unicamente
emitir o necessário de sons
prenunciando minhas atitudes.
Além disso eu preciso prometer.
Agora tudo que eu falo é balela
se não vier vinculado a um
"Ahhh eu juro sim".

Se bem que nossa geração já se acostumou
a ver a banalização das coisas
subitamente por meio de outras.
E é isso que tem acontecido
desde o princípio.
O léxico assassinou a "palavra"
com juras e promessas.
Mas palavras vão além.
Já são espíritos mortos que saem
de onde passaram tanto tempo, que morreram.
E à medida que se pensa, a ideia percorre
um caminho tão longo que ela morre.
Simplesmente assim. E depois de morta
precisa sair pela laringe
e a boca diz:"Aqui jaz um pensamento".

Não juro amor eterno
Nem prometo lavar a louça.
Pois, há quem fala sem pensar
e há quem diga o que não quer.
Mas se eu expeli algumas sílabas,
gemidos e segredos, é assim que é.
Sinto muito, meu bem,
mas não peça promessas.
Aqui há muito pouca sanidade
pra basear verdades ou mentiras
em conceitos místicos e culturais
sem sentido. Agora faça-me o favor:
Ouça aquela música e saia de si
por que há muito o que pensar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Gente nossa


O suor aqui sempre valeu ouro como em toda terra de trabalhador. É o sangue frio dos poros vivos de gente mestiça. Gente que fez da terra lar e do amarelo, chão. Aqui o único verde é o do juazeiro e o sol arde em brasa na pele avermelhada. Aqui o açude enterra os seus mortos mas não mata a sede de ninguém. Aqui Cristo também tem braços abertos e vê cada periferia. Mas é só. Aqui ainda há os que ostentam o crucifixo como troféu aceso de perseverança. O mesmo povo que faz história e cultura. Por que cidade não é feita de Pe. Rolim nem papa, presidente, prefeito ou diabo a quatro. É o povo que faz história, que faz terra. Aqui, que tem oiticicas mais velhas que eu e ainda imita o Rio num pôr do sol formoso. Aqui tem gente de garra que se acumula e se empurra pra todo lado pra poder caber. Personagens carregados de histórias e esbanjam sorrisos sinceros no rosto. É pedaço de chão simples de ver, simples de falar, cheio de suas façanhas e agente de sabedoria. Mas quem conhece mesmo a terrinha é quem bate perna. É quem troca passos com a solidão nas ruas do centro. Quem conhece os moradores de rua até por nome. É gente que inspira gente e fica contente com a Carrazêra nossa de todo dia.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Medo


(De minha amiga Ana Lísia)

Quando menos espera-se
Vejo-me em um verdadeiro desatino
Em que não se pode mais saber o que pensar.
Mediante a uma espécie de loucura
Proponho-me a refletir.

Estas advindas das minhas dúvidas
Faz-me enxergar bem de perto o medo
Este, por sua vez, inescrupuloso
Joga-me a verdade sem piedade alguma.

E espero que assim o faça.
Ao mesmo tempo que procuro ignorá-lo
Prefiro... Já que não se restam alternativas
Escondendo os anseios
Fingindo, fugindo do que atormenta.

Ainda quero que sejam diferenças.
Mas ele me mostra as divergências
Imponho segredo
Que guardo dentro de mim
Escondidos em gestos, olhares e toques.

E ainda tão contidos
Deixo-os florescer
Mesmo pela incerteza do eterno
E ainda da verdade inescrupulosa
Momentaneamente loucura. Mas prefiro...

domingo, 13 de janeiro de 2013

Noites de sexta


Estavam ali jogados no chão os papéis amassados
cheios de rabiscos asquerosos e tediosos.
Por que na semana inteira é essa a cena.
O tédio com sons em disparate
e palavras jogadas no remorso do silêncio.
Mas era o dia da liberdade psicológica.
É como eu chamo esse calor momentâneo
que ferve as tripas e quer correr
de súbito sem uma gota de paciência
pra o cenário de um poema de Bukowski.

E essa liberdade me permite a franqueza
de dar gargalhadas falando mal do ordinários.
Dois seres dando gargalhadas dos ordinários.
Mais uma sexta-feira de verbos sorrateiros
que jorravam da garganta no ápice das ideias
de uma moça simples e ponderada.
Mais uma noite quente na mesa de plástico
com a cerveja derramada em cima
e um gole na boca a cada 30 segundos.
Eu com minha cadeira na sombra de cajá
Ouvia as teorias e opiniões desde
a pressão arterial até o humor
politicamente incorreto.

As teorias são poderosas.
Toda teoria é poderosa.
Vai depender de quem as conduz
e com que argumentos as faz correr.
São às vezes palavras fugazes vinculadas
às banalidades e bobagens no papel.
É como escrever poemas ouvindo Belchior.
Como sentar na pedra e deduzir quem a colocou lá.
É como perturbar a própria mente em noites assim quentes
ou mesmo noites frias de leves pancadas no rosto.
Mas esse sertão raramente me permite o frio.
É sempre o calor de brasa sem sono ou brisa.
Sempre sentado num canto escuro de parede
pensando em versos de boteco.

Mas é fascinante formular teorias.
Veja aquele cão! Quantas histórias
ele contaria se pudesse falar?
Veja o firmamento! Te parece belo
ou só rotineiro como o café?
Você pularia do quarto andar
se soubesse o que ninguém sabe?
É tudo bobagem! Teorias são bobagens!
Mas excitam mais que as zonas erógenas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Brilho impessoal


Se tu tens ciúmes quando eu falo dela,
releve por obséquio tanta impetuosidade.
É que a paixão é sincera, mas é só casualidade.
É coisa que brota dos olhos e goteja na boca
Como a fruta mais desejável e carne gordurosa.
Por que eu também a desejo mais assim,
cheia, bem redonda, cintilante.
Por que o que emana paixão é beleza.
É beleza que mata e que fere.
Não me censure, então, se eu a exalto,
se a poetizo e a olho em demasia.
É que ela ofusca as estrelas.
É que hoje me faz companhia
Mas amanhã me abandona. É assim...
Sempre inconstante,imprevisível.
Me fita de chofre imóvel
e me julga sem nada dizer.
Vive na inércia do tempo,
compartilha meus devaneios,
divide minha insanidade,
me seduz sem luxúria.
Mas não se irrite; Tu és diferente!
É que a ela, o meu prazer é ver!
A ti, o meu prazer é tocar.
É ver a libido escorrendo
como orvalho rente a pele,
já que te amei mais com as mãos
que qualquer outra parte vulgar desse corpo.
Mas...olha pra ela! A ti também devia encantar!
Olha pra ela enquanto te mapeio
com cada ponta dos dedos.
Enquanto eu gaguejo no teu ouvido
falando da luz dela no teu busto.
Se ela é tão rara quanto tu.
Se em tudo são belezas.
São peças cheias de doçura
com a calda por cima que eleva
o apetite até onde não se pode mais comer.
Mas olha também pra mim,
encontrando essas pupilas
com as minhas negras e neuróticas.
Se ela é bela e transcendente,
nós dois não deixamos de ser.
Ela só voltará assim mês que vem.
Assim, cheia, redonda, cintilante.
Mas, Enquanto ela não vem
me estufo e exagero nesse outro brilho.
Esse teu brilho forte, intenso, impessoal.
Não é tão forte quanto o dela.
Nem tão intenso quanto o dela.
Nem muito menos impessoal.
Ahh passa longe de impessoal.
Mas é muito melhor!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Coroa alva










Tantas coisas já viram estas retinas fatigadas!
Tantas milhões de vezes já pestanejaram!
Tantas milhões de imagens já capturaram!
A derrota de 50,
o regime militar,
o tropicalismo,
o milagre econômico,
o plano real,
o atentado em 2001.
E em cada minuciosa cena imposta,
a imagem menos nítida fica.
A recompensa é uma coroa alva e fina
na cabeça que tanto peso carregou,
que tantas paranoias alimentou e
agora já anuncia a hora da partida.
Cansado de tantos passos já dados
num mundo que nem sequer notou
as histórias e estórias que o mesmo se fez ver.
Não, nem precisa falar. Mostra as mãos calejadas,
marcadas no moinho de milho e no cabo de enxada.
A enxada que andava sozinha e que o alimentou.
Mas, agora, já devaneia e medita sozinho.
Troca o dia de hoje por 30 anos atrás
e como aprecia um bom jogo de conversas!
Ah velho, quem terá roubado teu sonho?
Fostes feliz ou fostes alegre?
Quem decretou a lei morte?
Quem te privou da eternidade?
Querias viver assim, pra sempre?
Quem decretou a lei que o tempo enruga a pele
e faz nascer os grisalhos da experiência?
Por que é isso que eles mostram!
Ah velho, queria eu ter tuas ideias,
teu jeito de lidar e compreender!
Mas, se assim fosse, não faria eu
as besteiras necessárias pra se viver.
No mais, que a vida tenha piedade
e te leve na ânsia do descanso.
Quanto a mim, meu velho, tirando os imprevistos,
ainda tenho muito o que viver!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Canção pra não morrer


Eu musiquei aquele poema teu.
Mergulhei fundo nos versos finos.
Ouvia cada sílaba como procedente da tua voz
Ouvia as pregas vocais murmurando
Ao som de um solilóquio vago, mas ousado.
Simples, mas abstrato. Tão exato!
Contudo, faltam-me adjetivos.
Sim, digamos unicamente indizível.
Tanto ouvi que quis tocar.
Mas a música é arte, é sorte, é frêmito,
É terremoto que acomete a alma,
É o súbito da cura do pecado,
É a ciência mais perfeita na sua inexatidão.
Então eu musiquei...
Como a trilha sonora de um ensaio cinematográfico
Que toca na hora perfeita
E agrega os elementos mais sombrios aos mais puros
Sem pretexto ou pretensão.
Foi quando houve o silêncio.
Não aquele perturbador.
Não, foi aquele meigo que paira no ar.
Foi a fermata que veio como lembrete
De que a vida tem intervalos e pausas.
De que o silêncio é tão esplêndido quanto melodia.
E quando se vincula o acorde, a pausa
E o mais ínfimo impulso, tem-se a canção.
A canção que guarda o poema no ninho.
Acalenta e protege, tornando-o rocha.
Arpeja mil ecos de afagos.
E o teu poema era assim.
Era cálido no início e suave no fim.
Roeu minhas entranhas e inverteu cada artéria
Que quando ouvi a melodia eu musiquei
Como se eu fosse morrer se não o fizesse.
Por que o poema era teu
E tudo que é teu me encanta,
E me esmaga e me detona,
Desce, sobe, sustenido, bemol.
E cada sílaba soava em harmonia.
Mas sem pauta, sem ritmo.
Por que o poema era teu.
Meu era o êxtase. Era o ímpeto.
E eu que tentava fazer arte
Da arte que tu me emprestaste.
E eu que tocava o campo harmônico
Pra não morrer contido.
Por que a arte é assim.
Ela te vem como ninguém. Ou melhor,
Ela vem como um diabo bom que oferece o melhor,
Mas te rouba a alma como pobre esfaimando.
A arte é assim. Sempre quer algo em troca.
Quer ser livre. Quer voar.
É como aurora. É como luz.
É como raiva...Uma hora você precisa se livrar.