Houve uma manhã de terça que eu
prestei bem atenção no coletor de lixo lá de casa. Sujeito simples, de pele
morena, ostentando um bigode mal feito, displicente com a máscara que devia
estar acostumado em meio à tanta sujeira. E o suor brilhava na testa como
alumínio na luz do sol. Sem dúvida, é um emprego que ninguém quer ter. Mas, por
que o gari só ganha um salário mínimo? Foi a pergunta que permeou minha mente
durante um tempo. Eu quero dizer que tem trabalhos muito menos trabalhosos em
que se ganha muito mais. É claro que quando se fala em emprego pra quase nada
trabalhar e faturar um bom dinheiro, se pensa logo em política. E foi isso
mesmo que eu pensei. Talvez alguém diga que lixeiro foi a última oportunidade
que lhe restou por não ter estudado muito. Mas o que eu faria se não tivesse
ninguém pra recolher meu lixo? O que o político faria se não houvesse ninguém
pra jogar fora o lixo dele? Será que ele pagaria alguém e pagaria bem pra fazer
um trabalho “sujo”?
Mais do que isso, eu pensei se o
lixeiro talvez tivesse um filho pequeno em idade escolar. Pensei no que ele
diria no dia do trabalho onde todos os garotinhos falavam entusiasticamente na
escola dos trabalhos de seus pais. E, pra esse garoto, não seria diferente. Ele
ia dizer com todo orgulho que o pai é gari. Talvez os colegas de escola até
zoassem, mas quando se tem um herói, você simplesmente não deixa que falem mal
por muito tempo.
Com Mateus era exatamente isso que
acontecia. Talvez ele até não soubesse que o trabalho do seu pai valia mais que
o de muitos certos políticos juntos. Mas isso seria só mais um detalhe pra ele
idolatrar mais ainda a figura paterna. Mateus só tinha sete anos e amava quando
seu pai ensinava sobre como era possível reciclar certas coisas que ele nunca
pensou em fazer. Ele gostava de futebol, de lasanha e de quando seu pai trazia
brinquedos pra ele. Mateus também nunca soube que seu pai encontrava brinquedos
bem conservados no lixo de alguns bairros de classe média e, depois de uma boa
lavada, dava de presente pra o filhão. Não sei se pela felicidade de ganhar
coisa nova, mas ele também nunca sentiu falta de embalagens nos brinquedos.
Simplesmente ansiava quando seu pai entrava pela porta escondendo alguma coisa
nas costas.
O que contribui muito pra felicidade
de Mateus é que ele só tem sete anos e não se importa com o que venham a falar
de seu pai. Quando ele vê que tem comida, brinquedos e àquela hora da noite pra
aprender reciclagem, tá tudo certo. Num certo dia do trabalho, a professora
perguntou se Mateus era feliz com o trabalho do pai. Ele respondeu: “Não. Eu
queria que ele voltasse mais cedo pra casa por que às vezes eu começo a
reciclar plástico sozinho e erro o corte. Ele é a única pessoa no mundo que
saber consertar.”
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