Sábado, 25 de maio de 2013, dia de sol forte depois
de uma chuva amena no início da manhã. Foi quando eu conheci Vitória; dando-me
o prazer de olhar naqueles olhos enquanto ela falava. O encontro foi um total
acaso e, eu até atribuiria essa casualidade ao destino, se eu acreditasse nesse
conceito solitário sem sentido que limita a compreensão humana. De qualquer
forma, Vitória é uma menina encantadora, tem metade da minha idade, é filha única,
gosta de vestir roupas coloridas. Não, não que ela goste de muitas cores nas
peças de roupa. Só que ela gosta de muitas cores no corpo, o que a impele a
usar, por exemplo, uma blusa laranja cintilante, com uma calça rosa bebê e
talvez umas meias bem estampadas. Ah, ela tem também uma doença crônica nas
pernas que não lhe permite andar sozinha desde sempre, já tendo passado por
duas cirurgias. Mas esse não é o fato mais importante sobre Vitória, uma vez
que as deficiências geralmente são o fato mais importante sobre as pessoas que
carregam esse fardo. Não, o fato mais importante sobre Vitória é o sorriso que
ela ostenta no rosto como seu maior troféu. Sabe aquelas pessoas que tem algum
tipo de deficiência psicológica e ri com tudo? Então, esse é o caso. Não, o
caso não é que Vitória tenha alguma deficiência psicológica. O caso é que essa
moça se mostra tão feliz que quase tudo é motivo de riso pra seus lábios finos.
É como encontrar no mundo amargo uma paz quase que única dentro de um instante
fugaz.
Há quem diga que o sorriso é contagiante e eu até
concordo bastante, mas até hoje eu nunca vi nenhum como o dela. Não é só
comigo, mas é instantâneo. Ela ri e você ri junto como se tivesse ligado no
“automático”. Na verdade, é impossível não sorri só de lembrar do seu riso
frouxo. E de falar em tanto ri e não ri, a única coisa que eu consegui fazer ao
conhecê-la foi comparar. Comparar a existência das pessoas, os problemas das
pessoas e, mais do que tudo, o valor que damos aos problemas. É claro que meus
pequenos descontentamentos não são um grão de areia comparado ao seu infortúnio
de querer andar e não conseguir. É que eu fiquei imaginando Vitória nos seus
onze anos de existência, por exemplo, pedindo a mãe para levá-la ao banheiro de
trinta em trinta minutos. Imaginei talvez, a sua dependência de alguém para guia-la
em qualquer espécie de situação. Quando eu pensei se fosse comigo, de não poder
talvez sair em um dia qualquer no meio da tarde pra caminhar por aí sem rumo, a
sensação foi bem desagradável.
De qualquer forma, sem dúvida a coisa mais
importante sobre Vitória é seu sorriso. Não é nada forçado. É uma felicidade
que ela emana de todas as pequenas coisas que se passam em sua mente. De todos
os detalhes compreendidos no seu mundo que, pelo visto, engloba um exército de
afetos. Ao que parece, ela se realiza nas coisas que pode fazer, em vez de se
torturar pensando no que não pode. E se no meu sincero otimismo eu aprendi algo
muito importante dessa menina, mais do que isso, lamentei os inúmeros sujeitos
que reclamam de viver por causa de dramas e das fugas do tédio sem significado.
Lamentei os desafinados nas notas mais simplórias de alegria. Lamentei a
lamentação dos miseráveis que mais lamentam sem motivo por falta do que fazer.
Mas foi só por instante, porque quando Vitória abria o sorriso, eu só pensava
em sorrir também e não tive tempo pra lamentações.
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