sábado, 29 de dezembro de 2012

A moça que mal conheço


Mais um copo, troço, escuro e desvario.
Sem licença, dispensa o trivial.
Perdoe a audácia, mas perdoe se puder.
Afinal, que drama calculista,
Já que me foi excitar o superficial!
Acaso sórdido sou eu, por te ver e querer-te pra mim?
Se assim for, bendito o inferno, meu destino final!

Se eu mais indago que respiro ao ver-te passar,
Estático, lunático, hesitante...
Se te fito calado ou me mostro sagaz!
Se te arranco a beleza ou contenho o olhar!
Se me viro do avesso ou te viro, aliás,
Que ideia essa de me tirar as vísceras?
De embriagar-me de vontade se mal te conheço?
E ainda pago o preço de conter-me.
Indiferente em cada célula
E angustiante na dúvida.

Terá o intelecto escondido de Natacha Ikhméniev?
Terá a sensibilidade peculiar de Jamie Sullivan?
Terá a impetuosidade e orgulho de Verônica Miller?
Ahh tantas palavras obsoletas, desvarios incensantes,
Possibilidades perturbantes e tu ainda a passares.
Me arranca a retina num córrego amargo.
Me punge na língua um sangue bizarro.
E pedes baixinho um doce mulato.

Perdão! Ah perdão por seres a vontade,
A princesa do castelo, o rubi do baú,
Mas nem te dás conta do fatídico mistério.
Se enrosca num paradoxo mental que eu mesmo criei.
Regurgita cada pedaço e me tem como vítima
De um escândalo absurdo, digno do mais trivial dos atos.
Tão sublime, singela, sombria, amarga, doce, indizível.
Tão perdida que clama sem se ouvir.
Mas, tão segura que defende sem sentir.
Fantasma é a única característica que lhe resta.
E como fantasma, ou descansas ou atormenta-me!

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