quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Brilho impessoal


Se tu tens ciúmes quando eu falo dela,
releve por obséquio tanta impetuosidade.
É que a paixão é sincera, mas é só casualidade.
É coisa que brota dos olhos e goteja na boca
Como a fruta mais desejável e carne gordurosa.
Por que eu também a desejo mais assim,
cheia, bem redonda, cintilante.
Por que o que emana paixão é beleza.
É beleza que mata e que fere.
Não me censure, então, se eu a exalto,
se a poetizo e a olho em demasia.
É que ela ofusca as estrelas.
É que hoje me faz companhia
Mas amanhã me abandona. É assim...
Sempre inconstante,imprevisível.
Me fita de chofre imóvel
e me julga sem nada dizer.
Vive na inércia do tempo,
compartilha meus devaneios,
divide minha insanidade,
me seduz sem luxúria.
Mas não se irrite; Tu és diferente!
É que a ela, o meu prazer é ver!
A ti, o meu prazer é tocar.
É ver a libido escorrendo
como orvalho rente a pele,
já que te amei mais com as mãos
que qualquer outra parte vulgar desse corpo.
Mas...olha pra ela! A ti também devia encantar!
Olha pra ela enquanto te mapeio
com cada ponta dos dedos.
Enquanto eu gaguejo no teu ouvido
falando da luz dela no teu busto.
Se ela é tão rara quanto tu.
Se em tudo são belezas.
São peças cheias de doçura
com a calda por cima que eleva
o apetite até onde não se pode mais comer.
Mas olha também pra mim,
encontrando essas pupilas
com as minhas negras e neuróticas.
Se ela é bela e transcendente,
nós dois não deixamos de ser.
Ela só voltará assim mês que vem.
Assim, cheia, redonda, cintilante.
Mas, Enquanto ela não vem
me estufo e exagero nesse outro brilho.
Esse teu brilho forte, intenso, impessoal.
Não é tão forte quanto o dela.
Nem tão intenso quanto o dela.
Nem muito menos impessoal.
Ahh passa longe de impessoal.
Mas é muito melhor!

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